o riachense

Sexta,
12 de Agosto de 2022
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

Pedro Barroso

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

Os autores, a língua mãe e a desobediência

Em memória de mim e de todos os que aprenderam a amar a Língua Portuguesa hoje, 13 de Maio - por milagre da imbecilidade...- entrei de luto.

Fui sempre excelente aluno a Português. Nem tanto nas Matemáticas e Químicas, confesso, cuja exactidão e aridez me confundiam e perturbavam, por não permitirem opinião nem argumentos. Por isso as detestava. Não conseguia ver beleza nenhuma nem num número, nem numa fórmula química, sinceramente.

Aprendi a amar a leitura muito cedo. Meu pai ensinou-me a descobrir as mensagens enredadas e a elegância na fuga à censura pelos grandes mestres do jornalismo na altura. Norberto Lopes, Augusto Castro, Leitão de Barros, Manuela Azevedo, António Pedro Ruella Ramos, Joaquim Manso, Fernando Assis Pacheco...

Depois tive o privilégio maior de ser aluno de Latim do enorme vulto da escrita e da filosofia nacional que foi Vergílio Ferreira. Era assim que ele se assinava, Vergílio com e. Dele bebi toda a sua vasta obra, com um respeito imenso pela qualidade do que se absorvia daquelas palavras, daquela construção semântica, da sua própria desconstrução das ideias e daquela dimensão sibilina e estratosférica de pensamento.

Este razoado vem a propósito do putativo "acordo", sem acordo algum. Não teve sequer respeito pelos autores e intelectuais - pois dificilmente se encontrará um que o aprove... É aberrante, estúpido, inútil e contra natura.

Não se impõem as evoluções da Língua por decreto. Que tremendo disparate. DISCORDO ABSOLUTAMENTE. ponto. parágrafo. Não me invoquem ou remetam para portais da Língua - eu trabalho com ela há tanto tempo. Sim, se quisermos entrar por aí - por acordos anteriores – foi também asneira omitir o trema, por exemplo. É difícil explicar a um estrangeiro que aprenda a nossa língua porque se diz tranqüilo e não trankilo, uma vez que tal sinal foi abolido; e quilo se diz "kilo".

Teríamos muitos dias para conversar e debater tudo isso. Todos os acordos que houve e os que nunca deveria ter havido. Não me invoquem os neo-grafismos por razões etimológicas, políticas, comerciais, ou da oralidade corrente e aproximação dos povos. As divergências são saudáveis. Em Português nos entendemos.

As línguas nascem, evoluem, fluem e morrem; ou derivam em novos troncos. São vivas, adoptam termos, influenciam e são influenciadas como nós, seres vivos. Geram filhos, uns bastardos, outros autónomos e directos das línguas mães. Todos respeitáveis na sua pluralidade e comunhão possível. Alguma vez me passaria pela cabeça ler Jorge Amado sem ter o gosto e o sabor dos seus termos genuinamente brasileiros? E depois?

Deixemos evoluir as coisas naturalmente e não de forma decretada, fascista, opressora. Não sou sequer purista - digo "abat-jour", nunca me ocorreria dizer "quebra luz". Mas imporem-me “espetadores” em vez de espectadores, “receção” em vez de recepção, etc... e grafia igual para “para” e pára e outras alarvidades sem sentido, em nome de nada e de um acordo que não teve em conta, repito, a opinião dos autores. Isso não. JAMAIS. Nunca!

Um dia, Fernando Assis Pacheco telefonou-me e deu-me os parabéns por um LP que tinha saído há pouco - salvo erro "Roupas de Pátria, roupas de mulher"

Admitiu que o jornal "Sete", que ajudara a fundar, era recorrentemente injusto com a minha poética e a minha obra e queria reparar o facto. Fiquei surpreso com tal assunção.

Veio a Riachos de comboio, quase clandestino. Fui buscá-lo à estação. Pedi ao Zé da Laura para fazer um cabrito no forno da padaria. Ficou divinal. Comemos e bebemos bem e conversámos melhor ainda. Tínhamos o mesmo pulsar amante pela Língua Portuguesa - criei um amigo.

Emocionámo-nos. Queixou-se da própria geração de neo jornalistas que ele mesmo encontrava a cada dia no seu quotidiano de homem de cultura. Homem brilhante, sofria por isso. Falámos precisamente disto; destas questões da Língua Portuguesa.

Na terra ninguém soube que teria por cá passado. Era já nessa altura muito conhecido mas pela "visita da Cornélia" e poucos conhecerão ainda hoje a sua obra de autor prematuramente desaparecido.

Os autores são assim. Os autores trabalham a Língua e amam-na. Com ela comunicam, e sofrem, e partilham ideias, avanços, confidências, desabafos, sentimentos. Estou de luto, triste, magoado, revoltado. Mataram hoje, 13 de Maio, injustamente, uma grande amiga minha - a minha Língua.

A língua da velha pátria mãe. Sem necessidade. Amiga de uma vida!... Em nome da verdade convoco à desobediência total. É a ultima arma que nos resta neste país de cabeça perdida. 

Actualizado em ( Quinta, 14 Maio 2015 14:17 )  
{highslide type="img" height="200" width="300" event="click" class="" captionText="" positions="top, left" display="show" src="http://www.oriachense.pt/images/capa/capa801.jpg"}Click here {/highslide}

Opinião

 

António Mário Lopes dos Santos

Agarrem-me, senão concorro!

 

João Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária