o riachense

SŠbado,
15 de Junho de 2024
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Riachos entra no mapa dos vinhos de qualidade pela marca Zé da Leonor

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‚ÄúAroma discreto, floral, mineral e suavemente c√≠trico. Gordo e encorpado, com acidez integrada, boa secura, final intenso, c√≠trico, salino, com personalidade‚ÄĚ. Foi assim que a Revista Vinhos descreveu o vinho branco Z√© da Leonor Reserva 2013, o primeiro sa√≠do das jovens vinhas da Quinta Nova, plantadas em 2011, a que deu a nota de 15,5.
Menos de um ano depois do lan√ßamento, as primeiras 3500 garrafas com o r√≥tulo Z√© da Leonor esgotaram-se, o que, para o produtor Pedro Rebelo Lopes, √© um sinal muito positivo no arranque da produ√ß√£o deste vinho feito em Riachos com a inten√ß√£o de marcar uma posi√ß√£o em termos comerciais, mas tamb√©m que as gentes da terra ‚Äútenham orgulho nele‚ÄĚ.

A vinha e o vinho
A vinha, plantada em 2011, ocupa apenas quatro dos 22 hectares da quinta. S√≥ a encosta virada para sul, sobranceira ao Almonda, apresenta as caracter√≠sticas ideais para vinha, o resto √© quase s√≥ terras de aluvi√£o, onde se continua a cultivar milho. O produtor explica que, al√©m de se tirar partido de uma grande exposi√ß√£o solar (a r√°pida matura√ß√£o √© boa para evitar as chuvas de Setembro, este ano a vindima come√ßou a 15 de Agosto), o terreno de arenito com calhau rolado √© ‚Äúo melhor que se pode pedir‚ÄĚ para a qualidade da uva; os calhaus ajudam √† const√Ęncia de temperatura, tanto no ver√£o como no inverno, de dia e de noite.
 
O projecto ‚Äúdiferente‚ÄĚ de vitivinicultura ‚Äútradicional‚ÄĚ que o bisneto de Jos√© Lopes Barroso, o Z√© da Leonor, idealizou, juntamente com o seu primo en√≥logo Filipe Sevinate Pinto, parte da premissa da primazia da qualidade sobre a quantidade, querem um projecto de pequena/m√©dia dimens√£o, coerente com a dimens√£o da Quinta Nova, que ostente, no sabor e na identidade, claramente as marcas do Tejo, Riachos e qualidade.
Situada mesmo √† porta da adega, a vinha √© chamada de ‚Äútradicional‚ÄĚ por v√°rias raz√Ķes: a disposi√ß√£o em altura que impede, al√©m de dores de costas, contamina√ß√Ķes e permite uma maior produtividade, os postes de madeira, o que hoje em dia rareia, e a vindima feita √† m√£o. E depois h√° as pr√°ticas e o manuseamento: n√£o se faz mobiliza√ß√£o do solo, faz-se antes um enrelvamento para a menor eros√£o da terra e maior enraizamento, assim como menor consumo de √°gua. H√° cuidado com a biodiversidade existente, garante Pedro Rebelo Lopes, utilizando-se produtos fito-farmac√™uticos apenas ‚Äúmediante uma necessidade efectiva‚ÄĚ. Isto implicar√° o acompanhamento constante e d√° algumas dores de cabe√ßa, mas a ideia √© ter uma vinha ‚Äúo mais sustent√°vel poss√≠vel, o mais ambientalmente interessante com a maior qualidade poss√≠vel‚ÄĚ, o que n√£o √© √≥bvio em todas as vinhas.
 
Os produtores planearam meticulosamente todos os detalhes da explora√ß√£o, tendo em vista o produto idealizado. Os vinhos brancos querem-se cada vez ‚Äúmais frescos mas estruturados‚ÄĚ, diz o jovem empreendedor. Com dois anos e meio, a vinha da Quinta Nova, s√≥ de uvas brancas, deu 3500 garrafas. A produ√ß√£o de 2014 j√° vai dar umas 10 mil garrafas e ainda tem uns cinco anos de crescimento antes de estabilizar.
O vinho branco re√ļne a acidez do arinto, a estrutura do gouveio (ou verdelho) e o aroma do viognier. As tr√™s castas foram escolhidas a dedo e a √ļltima, francesa, √© o toque de mestre; apesar das podrid√Ķes frequentes e da quase extin√ß√£o dos anos 60, esta casta tem poucos produtores e √© cada vez mais procurada, porque d√° ‚Äúum nariz extraordin√°rio ao vinho‚ÄĚ.
 
Para os tintos e para o rosé (no princípio do ano saem o rosé de 2014 e o tinto de 2013) a fórmula inclui touriga nacional, alicante bouschet, cabernet sauvignon e syrah e a uva é comprada a um produtor da Zibreira. Dada a exiguidade dos terrenos, procurou-se um produtor que tivesse um solo parecido o da Quinta Nova e que não ficasse muito longe.
 
O primeiro lote de tinto da casa vai lan√ßar seis mil garrafas, um vinho ‚Äúencorpado mas n√£o muito agressivo na boca‚ÄĚ. Os par√Ęmetros antecipados pela parceria entre primos revelaram-se √† altura nos resultados.

Pai e filho, Carlos Rebelo Lopes e Pedro Rebelo Lopes h√° muito que sonhavam com um projecto para a Quinta Nova

A adega 
√Č uma adega mista entre o tradicional e o moderno e tudo √© feito com apenas duas pessoas, o pr√≥prio Pedro Rebelo Lopes e um empregado da Quinta, Jo√£o Alcoba√ßa, que trabalham ‚Äúlentamente, com tudo orientado para a qualidade‚ÄĚ. O ex-libris da adega √© uma velha prensa hidr√°ulica vertical de uma marca muito comum nas velhas adegas industriais, mas que j√° n√£o existe, √© a metal√ļrgica FAS, de Torres Vedras. Com a sua bomba de dois cavalos, prensa as massas com a ajuda do peso da √°gua e permite tirar mais cor (no caso do tinto) e aroma das uvas. Demora mais do dobro do tempo que as modernas prensas pneum√°ticas, d√° muito mais trabalho e √© praticamente uma pe√ßa de museu, adquirida numa adega que fechou, mas Pedro Rebelo Lopes n√£o prescinde dela.¬†
Outros pontos-chave do des√≠gnio da qualidade do vinho s√£o a fermenta√ß√£o a frio, o lagar para pisar a p√© parte das massas (torna o vinho mais encorpado) e a transi√ß√£o para a cave por gravidade (‚Äúquanto menos batidos melhor‚ÄĚ). Aqui, parte do vinho fica a estagiar em barricas de carvalho franc√™s, que ‚Äúarredonda o vinho‚ÄĚ, outra parte em garrafas.

A marca
N√£o √© barato ‚Äúmas √© um pre√ßo justo, at√© baixo para o vinho que √©‚ÄĚ assevera o produtor quanto aos 4,49 euros de PVP estabelecido para a primeira colheita. Num mercado nacional em que mais de 90% dos vinhos t√™m pre√ßos inferiores a 5 euros, a ideia √© colocar o Z√© da Leonor ainda neste intervalo, de forma a que se torne concorrencial.
 
N√£o se equaciona a venda nos supermercados porque n√£o existe volume suficiente e porque ‚Äúdesvirtuaria um bocado o projecto... se quisermos encontrar um vinho diferente, vai-se a uma garrafeira‚ÄĚ. √Č um vinho de nicho, que atrav√©s de distribui√ß√£o pr√≥pria vai ser vendido no distrito de Santar√©m e em Lisboa e Porto, e daqui a uns anos procurar√° a exporta√ß√£o.
 
Para j√°, meia d√ļzia de restaurantes mais meia d√ļzia de garrafeiras e lojas de produtos gourmet em Torres Novas, Goleg√£, Entroncamento e Lisboa, onde ainda haver√° algumas garrafas, foram as primeiras ‚Äúcobaias‚ÄĚ de uma experi√™ncia que estava fadada a ser bem sucedida.
 
O facto de a CVR ter atribu√≠do a chancela ‚ÄúReserva‚ÄĚ (uma designa√ß√£o de qualidade, mais do que de idade) a um vinho de uma adega nova e de uma colheita de primeiro ano tamb√©m n√£o √© comum. Mas o vinho da Quinta Nova √© para ser bebido, n√£o √© para guardar, aconselha Pedro Rebelo Lopes: ‚Äúbebam-no, n√£o o guardem, porque um vinho bom √© para se beber e tamb√©m porque os pr√≥ximos Z√© da Leonor v√£o ser melhores nos pr√≥ximos anos‚ÄĚ.¬†
 
A concorr√™ncia n√£o √© f√°cil, porque todos os anos aparecem marcas novas de bom vinho. Al√©m disso, ser um vinho novo do Tejo n√£o √© o mesmo que ser um vinho novo do Douro ou do Alentejo. Apesar de j√° haver mais aten√ß√£o para regi√Ķes como Lisboa, Bairrada e Tejo, a verdade √© que a popularidade destes vinhos ainda sofre das dores da heran√ßa da hist√≥ria. ‚Äú√Č dif√≠cil concorrer de peito aberto numa garrafeira de Lisboa. Para o cliente √© mais uma marca do Tejo que ningu√©m conhece. O Tejo √© uma marca que ainda est√° a afirmar-se aos poucos‚ÄĚ. Por estas raz√Ķes √© l√≠mpido: vender 3500 garrafas foi muito bom.
‚ÄúNormalmente [quando se pensa em Tejo] pensa-se em Almeirim ou Alpiar√ßa e esquece-se que a regi√£o vai at√© Tomar. H√° aqui vinhos mais pr√≥ximos da serra que n√£o t√™m nada a ver com o vinho de areia, s√£o diferentes‚ÄĚ. E em Riachos, Torres Novas, Entroncamento e Goleg√£, ‚Äúh√° um p√≥lo que achamos que faz sentido. Fazem-se vinhos de qualidade em todo o pa√≠s, porque √© que n√£o se h√°-de fazer em Riachos? E estamos a conseguir‚ÄĚ.
‚ÄúQuer√≠amos que fosse orgulhosamente um vinho de Riachos‚ÄĚ. Ser de Riachos tem a inten√ß√£o de as pessoas se identificarem com ele, mas tamb√©m porque existe uma mais-valia comercial nisso. No mundo dos vinhos, uma marca como Z√© da Leonor atribui um tom regional, casti√ßo, tradicional e ati√ßa a curiosidade do consumidor para saber mais sobre este produto proveniente de uma vila no meio do Ribatejo. Nas provas que foram feitas em Lisboa, as pessoas perguntavam quem √© o Z√© da Leonor e onde √© Riachos. ‚ÄúBem, a verdade √© que muita gente em todo o lado conhece Riachos, mas este √© um pretexto para contar uma hist√≥ria verdadeira e criar uma aura de envolv√™ncia‚ÄĚ. A frase adoptada para o r√≥tulo foi ‚ÄúA marca da nossa hist√≥ria‚ÄĚ, que hist√≥ria? ‚ÄúPara mim √© a minha hist√≥ria, para si √© a hist√≥ria de Riachos, para Lisboa √© a hist√≥ria de uma regi√£o‚Ķ isto vai ao encontro do que √© o vinho, um produto hist√≥rico. A pessoa quer beber um vinho bom, mas tamb√©m quer saber a sua hist√≥ria‚ÄĚ.¬†
 
A cria√ß√£o da marca foi pois planeada com medida. Mais ou menos no momento em que plantou a vinha, Pedro Rebelo Lopes, 33 anos, ge√≥grafo de forma√ß√£o e agricultor de profiss√£o (em Aljustrel e Riachos), que nunca antes tinha feito vinho, apesar de sempre o ter bebido, fez uma p√≥s-gradua√ß√£o em ‚ÄúWine Business‚ÄĚ, ou seja, a gest√£o da vitivinicultura e o neg√≥cio do vinho.

A eira da Quinta Nova, que faz parte da memória colectiva riachense, vai ser mantida

A quinta
Todo o olival que existia na encosta da vinha foi transplantado para diversos s√≠tios, com o lamento de uma ou outra oliveira n√£o ter sobrevivido √† mudan√ßa. No lado oposto da quinta permanecem dezenas de velhas oliveiras plantadas pelo bisav√ī, esse n√£o ser√° arrancado, em parte por quest√Ķes de afectividade.
 
√Č nesta zona que est√° a eira mais famosa de Riachos, como Pedro Rebelo Lopes bem repara com tanta gente que o tem abordado, cheia de curiosidade sobre o que agora l√° se faz. T√£o famosa, que a velha quinta at√© ficou, durante muito tempo, mais conhecida por ‚Äėa eira‚Äô. Frequentada durante d√©cadas por piqueniques, passeios, banhos no Almonda e outros prazeres ‚Äď at√© festas populares l√° foram feitas nos anos 80 e encena√ß√Ķes das pr√°ticas da lavoura que encerravam mais import√Ęncia social antes da chegada em for√ßa da mecaniza√ß√£o dos campos, normalmente por ocasi√£o de Festas da B√™n√ß√£o do Gado - elegendo este como um dos s√≠tios mais bonitos da freguesia para se desfrutar de paisagens naturais e da estreita liga√ß√£o ao rio e aos campos. √Č para manter intocada, garante o propriet√°rio, pela sua beleza e pela mem√≥ria. J√° as velhas fachadas, tanques e a chamin√© da antiga destilaria que, para quem tem menos de 40 ou 50 anos, nunca passaram de sombras vindas de tempos antigos que, em conjunto com a velha muralha de terra em frente ao Galera (agora restaurada com os materiais modernos) ali faziam de guarda √† eira, o propriet√°rio revela que ainda n√£o sabe o que lhes vai fazer. Mas a mem√≥ria colectiva sobre a Quinta Nova vem de mais atr√°s.
 
A import√Ęncia social que a Quinta Nova teve noutros tempos reporta, claro, √† agricultura. Z√© da Leonor, que a fundou pela compra da parte dos terrenos de cultivo da Quinta da V√°rzea, foi um dos lavradores influentes de Riachos num tempo em que o tecido social se regia pela economia de meia d√ļzia de grandes lavradores. Na sua quinta trabalharam fam√≠lias e gera√ß√Ķes inteiras.
 
N√£o foi h√° muito tempo que ali se produziu uma das √ļltimas culturas mais espec√≠ficas da regi√£o: o c√Ęnhamo. Foi um dos s√≠tios do pa√≠s onde se produziu mais c√Ęnhamo nas d√©cadas de 1940 a 60, no programa nacional de produ√ß√£o desta fibra que era encomendada pela Fia√ß√£o e Tecidos, tamb√©m ela agora j√° s√≥ uma mem√≥ria a apagar-se na gente. A proximidade ao rio, onde se fazia a macera√ß√£o das canas, assim o permitiu.
Depois do c√Ęnhamo, o vinho pode marcar a vida desta quinta. Pedro Rebelo Lopes n√£o enjeita uma eventual abertura para fins pedag√≥gicos e educativos no futuro, talvez com um regime de visitas para mostrar como se faz o vinho. Para j√°, o projecto ainda mal come√ßou e s√≥ daqui a cinco ou seis anos √© que todo o seu potencial ser√° bem espremido.
 
Riachos √© a terra da sua fam√≠lia paternal, onde nunca morou mas onde diz sentir as liga√ß√Ķes familiares. O pai, Carlos Rebelo Lopes, nasceu aqui, por isso na inf√Ęncia passava c√° as f√©rias, a av√≥ era a Laura da padaria do Z√© da Laura, na rua Menino de Deus. Lembra-se de muita coisa, mas entre a adolesc√™ncia e a planta√ß√£o da vinha, deixou de c√° vir. A quinta esteve arrendada muitos anos mas na fam√≠lia sempre se falou em fazer aqui alguma coisa. O vinho foi dominando cada vez mais as conversas e a ideia a fazer sentido, mas parecendo sempre uma coisa long√≠nqua. At√© que a propriedade da quinta ficou para o pai e come√ßaram a trabalhar.
 
‚ÄúH√° um esp√≠rito muito aguerrido em Riachos, eu falo com algumas pessoas mais velhas e v√™-se que t√™m orgulho nas coisas. Ainda h√° aqui pessoas muito ligadas √† terra‚ÄĚ, repara Pedro Rebelo Lopes. Agora quer que as pessoas consumam o seu vinho e ‚Äúque tenham algum orgulho nele‚ÄĚ.

Actualizado em ( Ter√ßa, 13 Janeiro 2015 13:14 )  
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