o riachense

Sbado,
13 de Julho de 2024
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João Maurício pintou um Saramago “suspenso num mundo de sonho”

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O novo mural de Violant inseriu-se num projecto da Escola EB23 Martins Correia
 
Já toda a gente conhece o Violant, nome com que João Maurício assina os seus murais. A sua fase mais efervescente, em que um eficaz tom provocatório era outra assinatura, já lá vai (não estamos a falar de tags, esses diz nunca os ter feito). Os stencils também já lá vão, mas o intuito de “meter as pessoas a pensar” ainda lá está.
 
A maturação levou o pintor riachense a outros pontos da sua imaginação. O surrealismo é, agora mais, a impressão dos seus quadros gigantescos. Depois de ter ido buscar inspiração ao naturalismo (um insecto colossal a rebentar de cor impressiona sempre), atravessa agora uma fase de árvores em explosões, bolhas e objectos flutuantes.
 
Na mais recente obra, colocou José Saramago "suspenso num mundo de sonho". Os pilares que o sustentam são uma alusão óbvia à mulher, Pilar del Rio. Representa o amor entre eles, confessa, mas não estritamente a velha máxima ‘por detrás de um homem, está uma grande mulher’. “Apesar de todo o desconforto físico, o homem aparece num ambiente de suspensão, num lugar de sonho”. A metáfora é esta: contra todas as probabilidades, Saramago tornou-se um grande escritor, até ganhou um prémio Nobel. Percebe-se que Maurício admira a figura de Saramago, “indirectamente um político activista, tinha os seus ideais e com eles vinha a sua influência”. Trata-se de uma proposta que o pintor de Riachos colocou na gaveta quando a Fundação Saramago não a acolheu.
 
Outros olhos vêm no mural uma alusão ao livro "A viagem do elefante", em que os pilares fazem lembrar o movimento das patas do paquiderme, e é Saramago, deitado e de olhos fechados, quem os conduz.
 
É literalmente a maior homenagem a Saramago feita na Golegã, depois da estátua na Azinhaga e da presença na toponímia da vila. A parede do pavilhão desportivo da escola EB23 Mestre Martins Correia serviu de substrato. A brincar, chama-lhe “Violant Armani”, por causa do fato que vestiu ao escritor, uma verdadeira peça de autor.
 
O convite feito pela Escola Mestre Martins Correia criou o momento ideal para o fazer na Golegã. Saramago era da Azinhaga e aquela escola até tem o nome de Mestre Martins Correia, mas isso são pormenores. Que melhor local do que uma escola para reflectir sobre Saramago? “Os responsáveis políticos deviam preocupar-se mais com o que se passa na cabeça dos putos”, diz Maurício quando questionado sobre a relevância de um mural desta dimensão numa escola.
 
A iniciativa inseriu-se no projecto escolar “Do Carvão às Cores”, que inclui um programa que atravessa vários anos lectivos, com projectos de pintura e poesia dirigidos à participação dos alunos e à intervenção de artistas convidados. Começou em Abril, ainda durante o período de aulas, o que permitiu, diz-nos um professor, a muitos alunos reagirem à evolução do mural.
 
É um dos maiores e mais ambiciosos trabalhos que fez, mas o resultado acaba por não ser o que lhe dá mais satisfação. A versão final do mural acabou por ser condicionada pela indisposição que ganhou a partir de determinado momento. Sentiu-se frustrado devido às esperanças que depositou neste primeiro trabalho feito para entidades oficiais. Alimentou, porque lhe deram, a esperança de poder finalmente utilizar uma grua automática para trabalhar nos pormenores. A Câmara foi o interlocutor na cedência e montagem de andaimes, assim como um empreiteiro local, Almeida, e no fornecimento das tintas de boa qualidade. A escola tentou por diversas vezes arranjar uma grua mas, sem dinheiro disponível para isso, a ideia oi descartada.
 
Foi “o trabalho mais difícil” que já fez, pela dimensão da área pintada, 10x20 metros sai um pouco dos seus limites, pelo menos utilizando apenas o extensor e os andaimes. Mas também por outras expectativas; esperava que, por ser numa escola, iria haver o acompanhamento permanente de pessoas, alunos e professores. Mas a articulação, nem sempre boa, com a montagem e desmontagem dos andaimes atrasou tudo e depois vieram as férias, pelo que fez a maior parte do trabalho sozinho.
 
O artista que fez recentemente um estudo académico sobre pintura em ruína já abandonou o spray e utiliza agora apenas tinta e pincéis. O seu caderno, onde a cada café bebido atira umas pinceladas com as aguarelas de bolso ou a caneta, está cheio de ideias à espera de parede e de tinta (um desses projectos é a famosa galga, como será a lenda de Riachos aos olhos de João Maurício?).
 
O seu ego artístico já se encontra num outro lugar, reconhece que a força motivadora da execução pela execução já não lhe basta. Precisa de reacções, reconhecimento e cumplicidades nos seus trabalhos, que lhe exigem muito esforço e, na maior parte dos casos, dinheiro que não tem. “Já não me chega a cedência do lugar, o dar a hipótese de fazer” totalmente à borla diz, “é preciso mais condições para trabalhar”.
 
“O tempo que se perde numa coisa desta envergadura contrasta com o [pouco] valor que lhe é dado”, atira. Pode ser que se engane.
 
O pintor tem muitos projectos em carteira
 
 
 
Actualizado em ( Terça, 12 Agosto 2014 12:59 )  
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