o riachense

Segunda,
23 de Outubro de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Agarrem-me, senão concorro!

Publicadas as listas dos partidos para as autárquicas de Torres Novas, sem listas de independentes à vista, e tudo bem organizado, como convém a candidatos a representantes do povo, entrara-se no rame-rame das propostas e promessas, dos cartazes e das, nem todas, prestações de contas. Mas quando tudo parecia rotineiro e manso, António Rodrigues, ex-presidente da Câmara de Torres Novas, vem à praça pública amesquinhar o seu antigo vice-presidente, Pedro Ferreira, acusando-o de nada fazer de positivo no seu mandato e perder todas as obras do carcanhol europeu para os concelhos limítrofes. Constara uns dias antes da publicação do comunicado que o assessor do timorense derrotado nas recentes eleições legislativas, Xanana Gusmão, ia avançar com uma lista de independentes. O terror invadiu a casa socialista do município, o corropio do pânico organizou, segundo consta, uma procissão de penitentes no gabinete do actual vice-presidente, mas a ameaça não passou de bravata: agarrem-me senão concorro, fica para daqui a quatro anos.

Por agora limita-se a intervir, já que ex-socialista, recém autodemitido pela desconsideração das escolhas dos candidatos a partir dum dado adquirido, a manutenção dos actuais presidentes, avisando que não ficará calado. E qual cacique de trono ameaçado, não deixa de lançar para a fogueira as achas do elogio dos adversários, especialmente do Bloco de Esquerda, a quem reconhece, não agora, mas no futuro acto eleitoral de 2021, a possibilidade de ganhar a Câmara ao PS do seu antigo ex-braço direito e actual presidente camarário. O desejo da derrota do PS é duma clara evidência, garantida ou pela sua candidatura tipo D. Sebastião, salvador da actual decadência socialista, ou pela vitória do BE.

Não deixa de, protótipo dum diabo tipo Passos Coelho, lançar para a fogueira das dores de cotovelo a gasolina da boa avaliação do Bloco de Esquerda, que acendeu logo o espírito santo de orelha do PCP, inconformado e, de imediato, no facebook, com alguns dos seus militantes mais dogmáticos, a sentirem que a oferta do gelado do poder à candidata Helena Pinto não deveria ortodoxamente deixar de ser criticada e que arderia marosca no elogio. A geringonça, se funciona em Lisboa, é nacionalmente bem mais um divórcio anunciado que um casamento de grande estabilidade, o que é pena, mas já Saramago anunciava que o pior cego não é o que não vê, mas o que se recusa a ver.

É pena que as esquerdas não tenham vindo, em comunicado, saber para quando se concretiza uma investigação aos vinte anos de gestão do então socialista António Rodrigues, nas suas obras exemplares, como o palácio do desportos, o edifício do antigo hospital para ser Câmara e que se transformou num qualquer coisa da cultura e do empreendedorismo, o parque de estacionamento no antigo campo de futebol e mercado municipal, nas inúmeras rotundas por onde se perde o esforço de limpeza e higiene públicas que a Câmara descurou nas zonas públicas que lhe pertencem, nos gastos dos intercâmbios com Cabo Verde e Timor, de que se não conhecem vantagens para o concelho promotor. Mas tal intercâmbio teve custos? Como cidadão, posso saber quais, com quem, para quê?

Estas diatribes da política autárquica concelhia relembram-me, não sei (ou penso que sei) se por desconforto, o que vai surgindo nos media nacionais sobre o ex-primeiro ministro Sócrates e o seu amigo de infância Carlos Silva, da Construtora do Lena. Porque algumas das obras surgiram e foram em frente durante o governo do primeiro e a Construtora do Lena foi a vencedora dos respectivos concursos e, espante-se, das penalizações e multas que a Câmara por incumprimento foi obrigada a pagar (perdão, que fomos obrigados a pagar, porque os responsáveis, que se saiba, não foi nada com eles), isto sem que se explique publicamente o como, o quando, o porquê, dos custos, dos concursos, dos prazos, das responsabilidades.

E, com amargura, reflito o progresso que transformou uma vila antiga numa cidade com uma periferia dormitório e um centro histórico apodrecido e abandonado, um mundo associativo e cultural pouco apoiado, as freguesias cada vez mais envelhecidas e sem dinâmica de futuro. Um mundo empreendedorístico e terciário como programa, sem agricultura, indústria, comércio, além das grandes superfícies e cadeias de produção que não pagam localmente os seus impostos.

Era disto que eu gostaria de ouvir nas eleições autárquicas. É que, não me importo de o dizer, não quero que o meu voto seja mais um D. Quixote luso a dar de mamar aos sanchos panças. Embora diferencie claramente os objectivos eleitorais das esquerdas dos das direitas, o meu cepticismo já se não alimenta de palavras, mas de actos que tenham como objectivos essenciais a transparência, a intervenção dos cidadãos na vida comunitária, o combate frontal à corrupção.

Agosto de 2017
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Por um problema técnico, de que pedimos desculpa ao autor e aos leitores, não foi possível publicar esta crónica de António Mário na última edição.

Actualizado em ( Quinta, 24 Agosto 2017 23:41 )  

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