o riachense

TerÁa,
25 de Abril de 2017
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Uma história de Natal

Tal como a maioria dos riachenses, tamb√©m eu tive uma educa√ß√£o que passou pela assimila√ß√£o da pr√°tica do catolicismo. Ainda hoje, apesar de todas as acultura√ß√Ķes, s√£o os princ√≠pios crist√£os que me norteiam na conduta em sociedade. No entanto, h√° muito que abandonei os rituais das celebra√ß√Ķes. Cansam-me determinados discursos que a Igreja Cat√≥lica na sua vers√£o mais retr√≥grada, mais obscurantista, mant√©m. Tamb√©m, alguma hipocrisia que a√≠ se vive da fraternidade aparente de quem l√° dentro bate com a m√£o no peito e c√° fora repete tropelias e maledic√™ncia, geram em mim alguma intoler√Ęncia que me afasta dessas pr√°ticas.

Respeito, contudo, o calendário religioso e esta altura é particularmente significativa. A minha relação com o sobrenatural ou, se quisermos, com a fé, é um misto entre a racionalidade que se explica e o sentimento (sentido, mas inexplicável).

Não devia contar esta história por ser demasiado intimista mas, justifica-se para chegar ao ponto pretendido:

Passou mais de uma d√©cada sobre uma v√©spera de Natal em que passei por uma experi√™ncia traum√°tica que me deixou na corda bamba entre o presente e o ausente. O dia de Natal foi passado em Santa Maria ligado por tubos que entravam por todos os buracos e mais alguns que os m√©dicos se encarregaram de fazer. Auxiliares respirat√≥rios e mais n√£o sei o qu√™, e ali estava im√≥vel. Mexia apenas os olhitos e pouco mais via que o tecto e umas cortinas laterais. Sabia que ao lado estava mais algu√©m porque a minha m√°quina ia competindo com outra ao lado a fazer pit, pit. √Äs vezes, a outra do lado fazia longos piiiiiiits e era uma az√°fama por l√° at√© que voltava ao normal pit, pit. A cena repetiu-se v√°rias vezes at√© que por uma vez as manobras foram mais complicadas e a m√°quina n√£o voltou a fazer pit, pit. Algu√©m disse um nome e as horas para o relat√≥rio. Era perto de meia-noite e fez-se sil√™ncio. Percebi que aquele comum mortal j√° n√£o era deste reino. Entretanto, fui ouvindo a minha m√°quina, pit, pit, sempre √† espera de uma altera√ß√£o do ritmo. De vez em quando tamb√©m l√° vinham fazer-me umas manobras, mais uns tubos, mais umas medi√ß√Ķes, at√© que a consci√™ncia se foi. Sem controlo de coisa nenhuma, senti-me no vazio, numa viagem estonteante. Pensei que aquilo era a mesma viagem que o outro do lado j√° tinha feito. Mas n√£o. Disseram-me mais tarde que aquilo eram alucina√ß√Ķes provocadas por um tipo de medicamentos.

As coisas foram-se passando, alguns tubos foram retirados e fui recambiado para o Hospital de Torres Novas. Um dia, de rompante, dirigiu-se a mim um padre que, sem mais qu√™ nem porqu√™, perguntou-me se podia dar os sacramentos. Apanhado de surpresa, apenas disse que sim. Ele rezou umas coisas que n√£o percebi, fez o sinal da cruz e voltou costas. Passado momentos √© que eu me pus a raciocinar sobre o acontecido e a fazer contas: Que raio, o homem entrou aqui, n√£o me pergunta se estava melhor ou pior, n√£o quis saber dos outros doentes que tamb√©m ali estavam, mas o que √© isto? Questionei eu. S√≥ tinha uma resposta: o homem veio mas foi para me encomendar. O epis√≥dio, parece uma tragicom√©dia. Mas o que √© certo, √© que deixou marcas profundas e h√° feridas psicol√≥gicas que custam mais a passar que as feridas f√≠sicas. Ainda hoje conservo essas marcas e, se soubesse quem foi aquela esp√©cie de padre, tinha meia d√ļzia de coisas para lhe dizer.¬†

Pouco a pouco, a recuperação foi-se fazendo e, um dia, assim, do nada, veio-me à ideia que quando pudesse ia a Fátima acender uma vela. Logo que pude, cumpri a promessa. Não sou devoto de Nossa Senhora, nunca lá estive em cerimónias e nem me recordo de alguma vez lá ter rezado uma Ave-Maria. Mas fui lá, num dia calmo, contemplar a chama da vela da minha vida. Se calhar, fiz um acto pagão naquele local que se diz sagrado. O episódio do padre podia ter-me deixado ressabiado e incapaz destes actos. Mas não, esta coisa da interiorização de sentimentos não tem grande explicação. O simbolismo do acto e da minha vela que vi queimar foi um momento que me fez sentir bem melhor que a inusitada visita daquele “servidor de Deus “.

Toda esta hist√≥ria vem na sequ√™ncia de uma not√≠cia que public√°mos nas p√°ginas do Riachense o m√™s passado, segundo a qual, est√° em curso uma peti√ß√£o p√ļblica contra a vinda do Papa a F√°tima no pr√≥ximo ano. O fundamento para essa peti√ß√£o reside no significado que essa visita tr√°s de dar o aval ao embuste do milagre de F√°tima, cozinhado no obscurantismo e nos interesses pol√≠ticos de ent√£o.

Porque conhe√ßo uma boa parte dos proponentes de tal peti√ß√£o e porque fui convidado a subscrev√™-la, obviamente que reflecti sobre a sua assinatura ou n√£o. De facto, acabei por n√£o subscrever a referida peti√ß√£o. N√£o √© que discorde dos fundamentos da mesma. Entendo, no entanto, que o assunto tem outra complexidade que n√£o pode ser descurada. As religi√Ķes s√£o uma cria√ß√£o do homem e todas t√™m as suas virtudes e fal√™ncias. E n√£o √© apan√°gio de um Estado laico e livre, como o que defendo, tolher ou desrespeitar as diferentes convic√ß√Ķes religiosas.

F√°tima, enquanto local de culto, √© um ref√ļgio para milhares ou milh√Ķes dos que professam o catolicismo. √Č onde, provavelmente, encontram algum conforto, tal como em v√°rios outros locais de culto que t√™m esse cond√£o de nos fazer sentir bem, pela serenidade, pelo sil√™ncio, pela singularidade da obra arquitect√≥nica.¬†

Como escrevi no in√≠cio, estou longe dos rituais e das celebra√ß√Ķes cat√≥licas. Mas, continuo com o velho h√°bito de fazer o pres√©pio, o que acabo agora de realizar. √Äs vezes pergunto-me: porqu√™? Mas n√£o vale a pena querer encontrar explica√ß√Ķes. Nestas coisas, a racionalidade, se calhar, n√£o deve ser chamada. Ficamos no campo do sentimento e ponto final.

Actualizado em ( Domingo, 25 Dezembro 2016 16:56 )  

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