o riachense

Segunda,
23 de Outubro de 2017
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Uma história de Natal

Tal como a maioria dos riachenses, também eu tive uma educação que passou pela assimilação da prática do catolicismo. Ainda hoje, apesar de todas as aculturações, são os princípios cristãos que me norteiam na conduta em sociedade. No entanto, há muito que abandonei os rituais das celebrações. Cansam-me determinados discursos que a Igreja Católica na sua versão mais retrógrada, mais obscurantista, mantém. Também, alguma hipocrisia que aí se vive da fraternidade aparente de quem lá dentro bate com a mão no peito e cá fora repete tropelias e maledicência, geram em mim alguma intolerância que me afasta dessas práticas.

Respeito, contudo, o calendário religioso e esta altura é particularmente significativa. A minha relação com o sobrenatural ou, se quisermos, com a fé, é um misto entre a racionalidade que se explica e o sentimento (sentido, mas inexplicável).

Não devia contar esta história por ser demasiado intimista mas, justifica-se para chegar ao ponto pretendido:

Passou mais de uma década sobre uma véspera de Natal em que passei por uma experiência traumática que me deixou na corda bamba entre o presente e o ausente. O dia de Natal foi passado em Santa Maria ligado por tubos que entravam por todos os buracos e mais alguns que os médicos se encarregaram de fazer. Auxiliares respiratórios e mais não sei o quê, e ali estava imóvel. Mexia apenas os olhitos e pouco mais via que o tecto e umas cortinas laterais. Sabia que ao lado estava mais alguém porque a minha máquina ia competindo com outra ao lado a fazer pit, pit. Às vezes, a outra do lado fazia longos piiiiiiits e era uma azáfama por lá até que voltava ao normal pit, pit. A cena repetiu-se várias vezes até que por uma vez as manobras foram mais complicadas e a máquina não voltou a fazer pit, pit. Alguém disse um nome e as horas para o relatório. Era perto de meia-noite e fez-se silêncio. Percebi que aquele comum mortal já não era deste reino. Entretanto, fui ouvindo a minha máquina, pit, pit, sempre à espera de uma alteração do ritmo. De vez em quando também lá vinham fazer-me umas manobras, mais uns tubos, mais umas medições, até que a consciência se foi. Sem controlo de coisa nenhuma, senti-me no vazio, numa viagem estonteante. Pensei que aquilo era a mesma viagem que o outro do lado já tinha feito. Mas não. Disseram-me mais tarde que aquilo eram alucinações provocadas por um tipo de medicamentos.

As coisas foram-se passando, alguns tubos foram retirados e fui recambiado para o Hospital de Torres Novas. Um dia, de rompante, dirigiu-se a mim um padre que, sem mais quê nem porquê, perguntou-me se podia dar os sacramentos. Apanhado de surpresa, apenas disse que sim. Ele rezou umas coisas que não percebi, fez o sinal da cruz e voltou costas. Passado momentos é que eu me pus a raciocinar sobre o acontecido e a fazer contas: Que raio, o homem entrou aqui, não me pergunta se estava melhor ou pior, não quis saber dos outros doentes que também ali estavam, mas o que é isto? Questionei eu. Só tinha uma resposta: o homem veio mas foi para me encomendar. O episódio, parece uma tragicomédia. Mas o que é certo, é que deixou marcas profundas e há feridas psicológicas que custam mais a passar que as feridas físicas. Ainda hoje conservo essas marcas e, se soubesse quem foi aquela espécie de padre, tinha meia dúzia de coisas para lhe dizer. 

Pouco a pouco, a recuperação foi-se fazendo e, um dia, assim, do nada, veio-me à ideia que quando pudesse ia a Fátima acender uma vela. Logo que pude, cumpri a promessa. Não sou devoto de Nossa Senhora, nunca lá estive em cerimónias e nem me recordo de alguma vez lá ter rezado uma Ave-Maria. Mas fui lá, num dia calmo, contemplar a chama da vela da minha vida. Se calhar, fiz um acto pagão naquele local que se diz sagrado. O episódio do padre podia ter-me deixado ressabiado e incapaz destes actos. Mas não, esta coisa da interiorização de sentimentos não tem grande explicação. O simbolismo do acto e da minha vela que vi queimar foi um momento que me fez sentir bem melhor que a inusitada visita daquele “servidor de Deus “.

Toda esta história vem na sequência de uma notícia que publicámos nas páginas do Riachense o mês passado, segundo a qual, está em curso uma petição pública contra a vinda do Papa a Fátima no próximo ano. O fundamento para essa petição reside no significado que essa visita trás de dar o aval ao embuste do milagre de Fátima, cozinhado no obscurantismo e nos interesses políticos de então.

Porque conheço uma boa parte dos proponentes de tal petição e porque fui convidado a subscrevê-la, obviamente que reflecti sobre a sua assinatura ou não. De facto, acabei por não subscrever a referida petição. Não é que discorde dos fundamentos da mesma. Entendo, no entanto, que o assunto tem outra complexidade que não pode ser descurada. As religiões são uma criação do homem e todas têm as suas virtudes e falências. E não é apanágio de um Estado laico e livre, como o que defendo, tolher ou desrespeitar as diferentes convicções religiosas.

Fátima, enquanto local de culto, é um refúgio para milhares ou milhões dos que professam o catolicismo. É onde, provavelmente, encontram algum conforto, tal como em vários outros locais de culto que têm esse condão de nos fazer sentir bem, pela serenidade, pelo silêncio, pela singularidade da obra arquitectónica. 

Como escrevi no início, estou longe dos rituais e das celebrações católicas. Mas, continuo com o velho hábito de fazer o presépio, o que acabo agora de realizar. Às vezes pergunto-me: porquê? Mas não vale a pena querer encontrar explicações. Nestas coisas, a racionalidade, se calhar, não deve ser chamada. Ficamos no campo do sentimento e ponto final.

Actualizado em ( Domingo, 25 Dezembro 2016 16:56 )  

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