o riachense

Quinta,
17 de Agosto de 2017
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Joaquim Mendes: “Ainda hoje há pessoas de Lisboa que vêm aqui fazer as revisões”

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Isto aqui com os Luzes era um movimento de noite e de dia. Um gajo está aqui sozinho, aqui num ermo. Vai morrendo tudo, é uma pena

Dantes usava patilhas e um bigodinho por cima do beiço, talvez a copiar o Errol Flynn, mas tirou-os quando casou. Nunca perdeu o gosto pelo bigode e pelo uso do fato de macaco . Foi mecânico de automóveis durante toda a sua vida. Começou aos 14 anos a mexer em tractores, que nessa altura havia muitos, e rapidamente se estabeleceu com uma oficina própria. 

Reparava os tractores dos agricultores mas também motores de rega e construía reboques para a agricultura. A sua marca de eleição nos tractores era a Massey Ferguson e nos carros era a Renault. Conheceu por fora e por dentro milhares de carros durante os 67 anos de trabalho, mas o melhor de todos para ele foi a 4L. Diz que “era uma grande máquina”. E para marcar essa memória tem duas 4L, que trata com todo o cuidado.
Joaquim Pereira Mendes, agora com 81 anos e reformado há 16, não passa um dia sem ir à oficina gerida desde há vários anos por um dos seus filhos, ali no Casal da Cascalheira, perto do edifício que já foi um café e onde até há poucos meses funcionou uma agência bancária. 
Cultiva a boa disposição e não será por acaso que tem clientes de há décadas e que vêm de longe, como o padre Ribeiro que vem de Alburitel para substituir uma lâmpada fundida. 
A sua oficina, a mais antiga de Riachos, faz meio século de vida no ano que vem, encontra-se instalada numa zona que ainda há poucos anos era das de maior movimento na localidade. “Agora”, diz Joaquim Mendes olhando para o eixo da Rua Entre Poços e da Rua Nova, “só estou aqui eu, o padre e o Retornado, não há mais nada. Um gajo está aqui sozinho, aqui num ermo. Vai morrendo tudo, é uma pena”.
 
Carlos Tomé
 
Sempre conheci o Joaquim Mendes com bigode e umas grandes patilhas. Mas dantes o bigode não era bem assim, pois não?
Não, dantes era só um traçozinho por cima do beiço. Não havia muita gente que usasse mas eu gostava daquele bigodinho, usei-o muitos anos.
 
Então mas porque é que deixou de o usar?
Olha, usei o bigodinho e as patilhas dos 17 aos 27 anos, mas tirei-os quando casei. Mas daí a um ano comecei a usar então o bigode normal que ainda hoje uso e as patilhas.
 
Quando é que começou a trabalhar como mecânico?
Foi aos 14 anos, fui para o Joaquim Vieira aprender o ofício. Ia para lá a pé e vinha para cá a andar.
 
Onde era o Joaquim Vieira?
O Joaquim Vieira Júnior era ao pé do Félix Carreira, ali em Torres Novas, mesmo pegado com o rio, onde está agora o mercado. Ele arranjava lá os carros da tropa, vinham para ali os jeeps, vinham os tanques, carrinhas de caixa aberta. Foi ali que eu comecei e estive lá quatro anos.
 
E dali foi para onde?
Dali fui para a Casa Martino que era na rua onde está agora o correio, lá em cima ao pé do Largo, no bico que está ali, está lá um prédio que era do Canais. Era mesmo onde está agora esse prédio.
 
Quem é que trabalhava no Martino?
Eram oito gajos lá a trabalhar e era tudo solteiro, tudo rapaziada nova, o mais velho ainda era eu. Os clientes quando lá iam mandar fazer algum serviço ficavam assim como que a torcer o nariz porque não viam lá ninguém com idade. Eu na altura tinha à volta de 20 anos.
 
Era sócio da empresa ou era só funcionário?
Primeiro fui trabalhador, trabalhei por conta deles, depois estive um ano em Alverca, depois estive outro ano em Celorico da Beira a tomar conta das máquinas numa firma de minérios, depois é que fui convidado para entrar para sócio dos Martinos, mas sócio a fazer quota e eu é que fiquei ali com aquilo, ganhava 40 escudos por semana e ficava logo lá metade para fazer a quota.
 
Entretanto, as instalações dessa empresa mudaram de sítio, não foi?
Pois, como aquilo começou a fazer muito movimento passou aqui para onde está agora o supermercado, na rua dos Singeleiros, até tinha lá umas bombas de gasolina e gasóleo. Mais tarde o José Marques passou aquilo para os Claras, mas eu já não cheguei a ficar por conta dos Claras.
 
Então nessa altura estabeleceu-se noutro lado, foi?
Pois, foi nessa altura que eu vim para aqui para a Cascalheira, vai fazer 50 anos o ano que vem, fez agora 49 anos no dia 5 de Julho.
 
Como já está aqui há tanto tempo, será que a sua oficina é a mais antiga de Riachos?
Cá do Riacho é a mais antiga que existe hoje. Na altura em que eu comecei já cá havia uma que era do Jacy Vieira, ali no cruzamento para a rua dos Casais Novos, nesse cabeço. Mas nessa altura só havia meia dúzia de carros cá no Riacho, eram dos médicos, do Dr. José Marques e era um gajo da Lusitânia. Trabalhava-se mais para a agricultura, tractores, fazia reboques novos para os tractores, depois é que foram aparecendo mais carros, depois veio o 25 de Abril  e o Estado começou a dar dinheiro aos agricultores para os tractores novos e deixou de haver os tractores velhos e então é que eu me virei para o lado dos carros. Foi nessa altura que começaram a aparecer as 4L e esses carros mais antigos.
 
Trabalhava em tractores de várias marcas ou era só de uma?
Quando estava nos tractores tratava só de uma marca, a Massey Ferguson, porque queira ou não queira um gajo tem que trabalhar só numa marca. O operário está feito para aquilo e as ferramentas também.

Um gajo, queira ou não queira, foi ultrapassado, eu não sei mexer num computador

E nos carros também era especialista numa marca?
Nos carros também, foi a Renault.
 
Durante toda a sua vida de trabalho conheceu por fora e por dentro muitos carros. Qual foi o melhor carro para si?
O melhor carro de todos foi a 4L. Era uma grande máquina. Caíam aqui as 4L todas da Telecom, cheguei a arranjá-los aqui todas. Era um grande carro. Eu ainda tenho duas 4L mas não as vendo. Uma é de 1987, foi agora à inspecção, está para lá o Zé Maria com ela, e a outra é de 1989, parece-me.
 
No último cortejo da Bênção do Gado levou um carro de um modelo antigo. Que carro era esse?
Era um Renault 10 de 1968, com 48 anos, tem um ano a menos que a oficina tem de vida, ainda andei a ver se arranjava um com 49 anos mas não consegui. Recebi-o de uma retoma. Achei aquilo engraçado. Está todo original, está inscrito no Automóvel Clube de Portugal, tem seguro e tudo, a antena ainda é de fibra, gosto do carro, ainda circula, se for preciso andar com ele ando, todos os anos vai à inspecção, anda pouco mas está bom. E tenho lá outro que era do João Galinha, que morava ali à entrada do Riacho na descida. Era um amarelo mas é mais novo uns três anos.
 
Ainda tem clientes antigos que são de fora de Riachos e que vêm com os carros aqui de propósito?
Tenho clientes antigos que vêm de fora e até continuo a ter o meu primeiro cliente, que é o mais antigo, o António Maria Carvalho, ali do Boquilobo. Olha, tenho aqui a fotografia dele (e mostra-me a fotografia do seu primeiro cliente).
 
E tem mais clientes fiéis que vêm de mais longe?
Olha, vem cá sempre o padre Ribeiro, de Alburitel, vem cá sempre, sempre, vem cá fazer a revisão, comprar carros, faz sempre tudo aqui, se tiver uma lâmpada fundida vem de Alburitel aqui, que nem se justifica. Ele foi sempre meu cliente desde que veio para cá como padre, foi quando saiu o padre Custódio, já foi há tantos anos que já nem me lembro quando foi.
 
Qual será a razão por que algumas pessoas mantêm essa fidelidade de muitos anos à sua oficina?
Eh pá, com certeza é porque se dão bem. Se prestar um mau serviço as pessoas já não vêm, pode ser uma inclinação das pessoas e do tratamento com elas, não é? E ainda hoje isso acontece. Há pessoas de Lisboa que vêm aqui fazer as revisões, e muito do serviço que prestamos é para empresas e clientes fora do Riacho.
 
Hoje dedica-se mais à venda de carros, já não faz mecânica, pois não?
Não, agora só estou nas vendas embora passe todos os dias pela oficina. Um gajo, queira ou não queira, foi ultrapassado, eu não sei mexer num computador, não é, e um gajo hoje que não saiba mexer em computadores é analfabeto.
 
Agora está reformado, não é?
Sim. Reformei-me quando fiz 50 anos de serviço. Andei 50 anos a descontar. Foi aos 65 anos, agora tenho 81.
 
Os seus trabalhadores estiveram cá sempre muitos anos ou é gente que entra e sai logo de seguida?
Olha, só para tu veres, o Júlio Cardoso está cá há 46 anos. Nunca despedi nenhum trabalhador. Nunca fui capaz de despedir nenhum nestes anos todos. Nunca despedi ninguém, nunca. São bons trabalhadores e gostam de cá estar, acho eu.
 
Antes do 25 de Abril havia o hábito de algumas empresas comemorarem o 1º de Maio. Também aconteceu isso na sua?
Foi sim senhor. Fiz sempre o 1º de Maio até ao 25 de Abril, com os trabalhadores daqui, do Rabaneta e dos Luzes. Comprávamos o peixe ao João da Luz, mas nunca o pagámos, ele acabava por oferecê-lo, e um ano até foi o padre Ribeiro com a gente. Fiz sempre, sempre, sempre o 1º de Maio. Juntava o pessoal todo e íamos para o Sobreirinho, era para aí que a gente ia mais. Depois, a seguir ao 25 de Abril, o pessoal já não quis fazer o 1º de Maio com o “patronato reaccionário”, como se dizia na altura.
 
Como é que vai o negócio dos carros?
Vai mal. A crise é grande. Vendem-se menos carros, o dinheiro não chega para tudo, este mês é a despesa dos livros para os cachopos e o dinheiro não chega para tudo. Vendem-se é os Ferraris e esses carros assim, isso vende-se, mas eu não tenho disso. 
 
Então e a escola? Andou aqui na escola de Riachos, não foi?
Pois, andei na universidade da Raposa, onde tirei a quarta classe. A minha irmã é que conseguiu tirar o quinto ano, mas se estivesse cá o meu pai não tirava, não é? Se os rapazes faziam a quarta classe, normalmente as cachopas ficavam só com a terceira classe, já dava para escrever uma carta ao namorado e pronto, já não seguiam mais. Era assim que funcionava. Eu quando fiz a quarta classe, ainda me lembro, o meu pai nunca tinha ido à escola, nem a minha mãe, quando me viram ler a primeira vez, começo a ver os olhos do meu pai muito brilhantes, ele já julgava que tinha um doutor lá em casa, porque ele costumava dizer “tenho uma pena de não saber uma letra do tamanho dum comboio…”
 
Na sua empresa era só mecânico ou também tratava da escrita?
Quando vim para aqui, para o Casal da Cascalheira, quem me fez a escrita no primeiro ano foi o Chico Plexa, mas depois os Claras, como eu era concorrente deles, proibiram o Plexa de me fazer a escrita, e então foi o Manuel Martins é que me fez a escrita.
 
E a oficina começou logo a dar lucro?
Houve uma altura em que o Manuel fez as contas da oficina e disse-me que isto dava 15 contos de lucro, e eu fiquei muito contente porque isso dava para pagar metade da dívida que tinha ao Júlio Padilha, que eram 30 contos. Mas ele depois perguntou-me “mas espere lá, você trabalha aqui mais ou menos quantas horas?” e eu disse-lhe “oh pá, a malta entra às oito e sai às cinco e eu fico sempre mais três ou quatro horas, venho aqui para o escritório passar as facturas à mão”. Então ele fez melhor as contas e disse-me “olhe, as contas verdadeiras são estas!” e afinal já não tinha lucro, tinha era prejuízo. E isso deu-me força para lutar. Isto só vai com muito trabalho, se não for assim não dá nada. Foram anos e anos que eu vim para aqui, chovia, fazia frio, até às tantas da noite, eu com o Plexa no escritoriozito e depois houve muitos anos em que fechámos o Café do Tomé, o Café Central, saíamos daqui por volta da meia-noite e íamos lá beber uma mistura fresquinha. Às vezes ele até já estava fechado mas abria-nos a porta, anos e anos.
 
Aqui há uns anos esta zona onde tem a oficina tinha mais movimento, não era?
Então não tinha! Agora só estou aqui eu, o padre e o Retornado, não há mais nada. Dantes havia os Luzes, o Pilricho, o supermercado, a padaria, chegou a haver uma escola de condução, o Café Central e até há uns tempo o banco, eh pá perdeu-se uma série de coisas, desapareceu tudo. Isto aqui com os Luzes era um movimento de noite e de dia. Um gajo está aqui sozinho, aqui num ermo. Vai morrendo tudo, é uma pena.

Actualizado em ( Sexta, 25 Novembro 2016 12:01 )  

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