o riachense

Sexta,
28 de Julho de 2017
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Miguel Cunha: “O Casal das Flores tem que estar aberto à comunidade”

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O treinador tirou-me um minuto depois do intervalo e os jogadores todos, do Riachense e do Torres Novas, pegaram-me ao colo e eu saí em ombros

Jogou futebol durante um quarto de século, sempre com a camisola do Clube Atlético Riachense. Os seus colegas, e foram umas centenas, das várias equipas que ajudou a construir faziam sempre recair em si o cargo de capitão, talvez pela sua capacidade de liderança, diz ele, ou pelas suas qualidades e pelo respeito que estes nutriam por si, dizem outros. 
No último jogo da sua carreira, no campo da Raposa, num famoso derby com o Desportivo de Torres Novas, os jogadores de ambos os clubes levaram em ombros o capitão do clube riachense. 
A sua vida esteve sempre ligada ao associativismo riachense e, diz Miguel Cunha, o que o move é o prazer do trabalho em prol da comunidade da qual aprendeu a gostar graças ao futebol, ao balneário do clube e, principalmente, às gentes de Riachos, que são diferentes e por serem diferentes fazem a sua terra ser diferente.
Há poucos dias, Miguel Cunha recusou o lugar de vereador na Câmara de Torres Novas porque, segundo diz, tem outras prioridades na sua vida, especialmente a de transformar o Casal das Flores num local de turismo rural em conciliação com um projecto de construção de um lar. 
Aos 40 anos, Miguel Cunha quer respeitar a memória do seu pai Pedro e do seu avô, Fernando Cunha, relativamente ao qual diz não chegar aos calcanhares, e por isso quer que o Casal das Flores, lugar simbólico de Riachos que acompanha a memória e a vida de centenas de riachenses, volte a estar aberto à comunidade, como esteve outrora.

Carlos Tomé 

Jogaste futebol no Clube Atlético Riachense durante quantos anos?
Comecei com sete anos e acabei com 32 como jogador, depois ainda estive mais cinco anos como director. E joguei sempre no Clube Atlético Riachense.
 
Porque é que nunca foste jogar para outro clube?
Olhe, dos juniores aos seniores ainda tive a possibilidade de ir para o Alcanena, mas o meu pai não me deixou, eu era menor, e já me pagavam um belíssimo ordenado. E para além disso era aqui que eu me sentia bem, também não era nenhum Ronaldo, tinha noção das minhas limitações e do meu valor. Cheguei a ser capitão de equipa de pessoas muito mais velhas do que eu, o Kiki, o Chambel, o Piranga, era o capitão de equipa dessa malta toda. Senti-me bem, fui ficando, tive vários convites para sair mas nunca saí. Foi uma questão opcional, de gostar do Clube, de ajudar o Clube.
 
Foste capitão nos juniores e nos seniores. A que se deve teres sido sempre escolhido como capitão de equipa?
Não sei, se calhar foi à capacidade de liderança, não por ser o melhor jogador, porque não era, havia muito melhores jogadores do que eu e muitos que ficaram pelo caminho, talvez pelas pessoas confiarem em mim, talvez, com um bocadinho de humildade, pela minha capacidade de liderança, penso eu, com 21, 22 anos fui capitão dos seniores até aos 32 anos, até acabar.
 
Disseste que havia melhores jogadores do que tu enquanto estiveste a jogar. Quem foram para ti os melhores jogadores do Clube Atlético Riachense nessa altura?
Eu tenho três ou quatro referências de jogadores que passaram por cá: o Chambel, sem dúvida nenhuma, foi quem me ensinou muito e talvez o melhor jogador que passou pelo Clube, não conhecendo eu muitos outros jogadores como o João Carlos Maurício, que não o vi jogar, o Mário Pescador, falavam muito dele, ponho no mesmo rol o Piranga, um dos grandes jogadores também. Depois há outra coisa curiosa, é que tanto o Chambel, como o Piranga, o Bruno Lemos, o Marco Neves, falo nestes quatro como podia falar noutros mais, são grandes amigos, e foi isso que eu tirei do futebol ao longo da minha vida, nunca saí da terceira divisão, é verdade, mas criei grandes amizades, a vida é tão curta que acho que tendo isso tenho tudo.
 
Quer dizer, para além da competição, o futebol é para ti também amizade?
Sem dúvida nenhuma. Eu gostava muito da competição, eu era um jogador que não era um primor técnico mas primava por trabalhar muito e por incutir esse trabalho nos miúdos ou nos novos jogadores que vinham todos os anos. Sem trabalho não se consegue nada, depois há uns que têm uns dotes, há outros que têm outros dotes, mas se trabalharmos todos nós conseguimos ter um bocadinho.
 
Pelo facto de nunca teres saído do mesmo clube, de jogares durante 25 anos, de teres sido capitão de várias equipas durante muitos anos, achas  que podes ser considerado um símbolo do Atlético?
Olhe, eu vou ver um jogo do Riachense e os miúdos reconhecem-me, as pessoas falam comigo com carinho, acho que sim, acho que fui uma das referências. Mas nós nunca podemos esquecer o João Carlos Maurício que ainda hoje é o mentor da velha guarda, nunca podemos esquecer, se calhar por outros motivos, os grandes jogadores que passaram por aqui, o Mário Pescador, referências por serem grandes jogadores, não podemos esquecer nunca o MIlú que foi meu sub-capitão e que assumiu o lugar de capitão quando eu saí, ser referência é um pouco isso também, é ter estado sempre aqui, sim nesse aspecto sim, portanto há grandes referências, fui capitão se calhar de centenas de jogadores, não é. Tem piada que na última época em que joguei, eramos uma equipa com um plantel de 22, 23 jogadores e eu lembro-me que 17 jogadores ou eram formados aqui em Riachos ou já tinham muitos anos de casa. Portanto, acho que esse é o maior elogio que se pode fazer ao Clube Atlético Riachense, e isso também não deixam de ser referências, não é.
 
Percebo que os jogadores são formados aqui e vão ficando por cá. Mas o que leva a que queiram ficar, haverá por aqui alguma mística especial?
Acho que sim, temos exemplos flagrantes, o caso do Chambel, o caso do Bruno Lemos, jogadores que podiam ganhar muito dinheiro noutros clubes e foram ficando. O Bruno Lemos teve todos os anos vários convites doutros clubes e foi ficando, portanto eu acho que realmente em Riachos não somos melhores nem piores que os outros, somos diferentes. Essa diferença está no balneário. Quando entram naquele balneário parece que bebem daquela água e gostam de cá ficar.
 
Mas o que é que o balneário tem de especial? Esse balneário é diferente dos outros, em quê?
Pois, essa pergunta tem piada, mas o que é certo é que isso é verdade. Olhe, houve jogadores que saíram à procura da vida deles para ganharem algum dinheiro no futebol e que regressaram e disseram “eu nunca devia ter saído daqui, aqui é que se estava bem”. Nós tínhamos um grupo, eu, o Chambel, o Kiki e o Lula, englobávamos aqui os mais novos e era uma família, não havia qualquer tipo de discriminação, éramos 21, jogavam 11 ao domingo mas os outros dez estavam sempre connosco e isso faz a diferença, mas eu acho que a grande diferença no clube são as pessoas, as pessoas têm feito ao longo da vida a diferença, a diferença tem sido esta.
 
Há em Riachos um sentimento bairrista que existe também no futebol e é evidente na rivalidade com o Desportivo de Torres Novas. Na tua altura essa rivalidade também se notava?
Sim, sem dúvida. É evidente que havia grande bairrismo, mas eramos e somos todos amigos, andávamos todos na escola, trabalhávamos todos, uns jogadores passavam do Torres Novas para o Riachense e do Riachense para o Torres Novas, mas sempre se manteve o bairrismo, e eu acho que é bom.  Aliás, acho que é bom jogarmos contra o Torres Novas, contra o Amiense, contra o Goleganenese, contra o Tomar, pois se jogarmos contra o Idanha ou contra o Proença-a-Nova, quem é que vai ver o jogo? Esse jogo não diz nada a ninguém. Não há dinheiro, então é melhor jogarmos aqui no nosso distrital, com aquilo que temos, com as pessoas que temos, a envolvência das pessoas, a envolvência da comunidade é muito mais importante nos dias que correm.
  
Durante o quarto de século em que jogaste, houve algum desafio que te tenha ficado na memória?
Sim, há vários jogos que eu nunca vou esquecer. Começando por um, talvez o mais importante, o da inauguração do relvado com o Benfica, nós toda a vida habituados ao pelado e repente o Coronel Mário Cunha com relvado, em 1995, por aí, foi um jogo marcante para o CAR mas também para o concelho.
Mas houve outros jogos importantes para mim. Os dois jogos de subida de divisão, em Coruche para a terceira divisão nacional, tinha eu 18 anos e já era titular na equipa de seniores; a outra subida, em Abrantes, em que precisávamos só do empate, se perdêssemos não subíamos. Houve outro jogo em que ganhámos ao Rio Maior, era a equipa dos milhões contra a equipa dos tostões, e a equipa dos tostões ganhou. Os derbys com o Torres Novas, que nunca esquecemos, um deles por coincidência foi a minha despedida do futebol no Coronel Mário Cunha. O treinador tirou-me um minuto depois do intervalo e os jogadores todos, do Riachense e do Torres Novas, pegaram-me ao colo e eu saí em ombros, foi um jogo muito emocionante que recordo sempre.
 
Tens falado do campo Coronel Mário Cunha, o teu bisavô, o teu avô Fernando Cunha foi um grande dinamizador do desporto em Riachos e em Torres Novas, o teu pai também jogou futebol, é possível afirmar-se que a tua veia desportiva vem dos teus antepassados?
Eu acho que sim. Antigamente gostava muito de hóquei em patins e de ténis. Na altura o ténis não estava muito em voga, e depois o hóquei fazia mal à coluna, acabei por ir através dos amigos da escola para o futebol. Talvez o meu pai tenha tido essa influência, porque desde miúdo que me levava aos jogos do Benfica, talvez mais pelo meu pai e com uma grande ajuda do meu avô, que são as duas grandes referências da minha vida, em tudo, quem me dera que o meu avô e o meu pai pudessem vir cá abaixo para eu ver o que eles diriam agora do Casal das Flores.
 
Achas que iriam ficar satisfeitos?
Acho que sim. Eu acredito sinceramente que hão-de estar a ver e hão-de estar minimamente orgulhosos do trabalho que se está aqui a fazer e acima de tudo não deixar cair o que eles construíram. Como referências de vida que eu tenho, o meu avô é que me ensinou muita coisa, ajudou-me quando eu precisei, o meu pai esteve sempre comigo, infelizmente já não estão cá fisicamente, mas gostaria muito de os ter cá, porque acho que estão orgulhosos do trabalho que se está aqui a fazer.
 
Como referências de vida que eu tenho, o meu avô é que me ensinou muita coisa, ajudou-me quando eu precisei, o meu pai esteve sempre comigo
 
O teu avô tinha uma visão muito aberta sobre as coisas e, inclusivamente, sobre a política, tendo em consideração o tempo em que viveu. Para além do teu avô ter sido importante na tua vida, ele também te abriu os horizontes?
Completamente, completamente. Até pequenas palavras que ele me foi dizendo e eu fui ouvindo ao longo da vida. O Casal das Flores é um exemplo, porque a primeira vez que eu toquei no assunto “lar” à minha família não foi fácil, mas depois as pessoas foram vendo o projecto e a coisa está a ficar em pé, mas o meu avô tinha o condão de pensar um bocadinho mais à frente. A nossa perspectiva aqui no Casal foi boa, nós tínhamos que criar aqui alternativas à agricultura, o turismo é muito sazonal, estamos aqui a fazer um “lar” e o objectivo é que seja um “lar” para as pessoas virem para aqui viver e não para morrer. Quando apareci com esta ideia de construir aqui um “lar”, pensei muito no meu avô, mas é evidente que eu não chego aos calcanhares dele. Digo com toda a sinceridade, acho que hoje fazem falta políticos como o Fernando Cunha.
 
Já que falaste em política, tiveste agora a possibilidade de assumires o lugar de vereador na Câmara Municipal de Torres Novas, mas recusaste. Porquê?
Para já, em termos políticos não é o dinheiro que me move. O Pedro Ferreira já me tinha convidado para chefe de gabinete e não aceitei, e nesta altura da minha vida não podia de todo aceitar o lugar de vereador. Nunca aceitaria o cargo de vereador para estar lá a levantar o dedo. Era um projecto de que gostava no início, com um pelouro em que podia dar alguma coisa ao concelho e à comunidade, eu digo-lhe já que não me interessa se a cor é preta ou cor-de-rosa, acho que a pessoa é que é importante, gosto do presidente, do Pedro Ferreira, aceitei o convite para a lista mas na altura a minha vida permitia isso. Eu e o Paulo Pereira comprámos a empresa, temos um projecto grande, falta um ano para as eleições e como tenho prioridades na minha vida isso fez-me dizer que não, com muita pena do Pedro Ferreira e minha também, mas o timing não era este.
Quer dizer, neste momento, o aspecto político fica para trás ou em suspenso…
Agora fica em suspenso. O dinheiro não me move nestas coisas, a cidadania tem que nos mover mais do que isso, as pessoas são cada vez mais importantes, lembrar a falta que o meu avô faz e daí a dizer que faltam políticos como o meu avô, eu não sou santo, não ia lá fazer milagres e certamente haveria muitas coisas em que eu estou em desacordo, e o que me move ali é o aspecto da cidadania. Neste momento, com o projecto que eu tenho, isso fica para trás. Daqui a um ano… adivinhar é difícil, não é?
 
A tua vida tem sido muito ligada ao trabalho associativo em Riachos. O que é que te move?
Eu gosto de Riachos e o futebol é culpado, pois fui para o futebol muito cedo e aprendi a gostar de Riachos. Depois as pessoas foram-me convidando e eu fui-me envolvendo em várias actividades, umas com bom trabalho e outras nem por isso, é como em tudo na vida, neste momento tenho muita coisa para me coçar.
 
Continuas com essa perspectiva do trabalho para a comunidade?
Sim, mas acima de tudo são coisas que também me dão prazer. Por exemplo a Bênção do Gado. Na última Festa da Bênção do Gado em que eu estive envolvido senti, talvez pelas dificuldades inerentes que sentimos em termos monetários, que foi muito mais difícil do que a primeira e do que a segunda, mas acho que as festas de 2004 a 2012 foram possivelmente as melhores Festas da Bênção do Gado a que eu assisti, e as pessoas dizem isso, era uma coisa a que eu gostava de voltar no futuro porque acho que… há bocado falámos porque é que o balneário de Riachos é diferente, então porque é que a Festa da Bênção do Gado também é diferente? Eu acho que são as pessoas, as pessoas é que fazem essa diferença.
Já percebi que neste momento as tuas apostas estão essencialmente viradas para o Casal das Flores. Achas que essas apostas podem ajudar Riachos a crescer?
Eu acho que sim, até porque o nosso objectivo, como o meu avô dizia, é ter as portas do Casal das Flores abertas à comunidade, nós queremos voltar a esse tempo. Nós estamos a preparar aqui um parquezinho de merendas, este ano já tivemos aqui muitos eventos da Bênção do Gado, vamos arranjar as mesas todas, vamos lá pôr um barzinho para criar ali um bom ambiente, nas noites quentes de Verão, porque é que não se vai ali ouvir uma música ao vivo...
 
O Casal das Flores era um local emblemático de Riachos, um elemento importante na vida e na memória desta localidade, as pessoas podiam usufruir dele. A tua ideia é manter esse espírito?
Sim, é manter esse espírito que infelizmente se perdeu. O meu avô, foi ele que criou esse espírito e eu quero imitá-lo nesse aspecto. O Casal das Flores tem que estar aberto à comunidade. Dantes vinha tudo para o tiro aos pratos, vinha tudo para o Casal do Cunha e agora penso que se perdeu isso. O meu avô morreu em 2000 e a partir daí houve uma estagnação. É certo que nós temos de evoluir em muita coisa mas há muita coisa que eu tenho pena que acabe porque nós temos que fazer muita coisa como se fazia antigamente, e eu acho que o Casal das Flores pode ser um exemplo disso.
Actualizado em ( Sexta, 25 Novembro 2016 11:03 )  

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