o riachense

Tera,
25 de Abril de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Sem imprensa não há democracia

O Riachense, como toda a imprensa regional, encontra-se em perigo de sobrevivência. A televisão, por um lado, a informática, o telemóvel, por outro, vão construindo paulatina e conscientemente, a nível mundial, uma nova mentalidade e um novo corpo social: um ser humano passivo, influenciável, domesticado, a caminho duma redução de linguagem, do contacto verbal, duma substituição da palavra escrita por uma oralidade rudimentar e uma comunhão esotérica nos telemóveis de abreviaturas, ideogramas, resumida estenografia. 

Cada vez mais a dizer-se em contacto, cada vez mais universal: na realidade, um ser solitário carregando em teclas, ligado ao mundo por um ecrã polarizado, imóvel e solitário como o seu IPOD, navegando o que lhe chega dos milhares de dicionários de imagens, como se tudo fosse uma nova Bíblia revelada por algo ou alguém escondido.

Os jornais transformam-se em pulsações electromagnéticas. Não é necessário correr o mundo. Ele chega-nos diariamente, de qualquer ponto planetário, através duma assinatura, como uma mercadoria instantânea. Devido aos fusos horários, o próprio conceito de tempo é subvertido. Mais de uma vez, li o Le Monde no dia anterior, horas antes, ao da publicação em papel chegar às ruas de Paris. Chegava-me, proveniente dum país da América do Norte, onde o dia começava no ontem em que ainda vivíamos. E eu lia, perto do fim do dia, o jornal do dia seguinte.

Muita informação não seleccionada conduz, em pouco tempo, à saturação. Desta ao desinteresse, vai um pequeno passo. O que conduz a uma nova humanidade, um ser perdido num oceano de ruído, os cinco sentidos assustados pela violência do mundo externo, a mente sem uma bóia que lhe garanta a sobrevivência do naufrágio da lucidez.

Caminhamos para o fim da escrita, como a que conhecemos? Para o fim da aprendizagem através do livro, do jornal, da folha impressa, da escola com professores, regras, convívio, descoberta, criatividade e disciplina social? 

A aprendizagem da democracia, no seu lento reedespertar desde o Renascimento, e tão desigual no tempo em que vivemos, terá tido apenas a vida fugaz da borboleta atraída pelo fogo onde sucumbirá?

Qualquer sociedade, perdido o caminho do conhecimento, entra na implosão, no retrocesso, reduz-se à barbárie da luta feroz pela sobrevivência ou cai na ditadura de minorias que, a troco do comprimido saciador ou anti-depressivo, lhe exige a total dedicação do corpo e do espírito para o mercado planetário que controla.

Seja comunidade, federação de estados, país, independente dos continentes, da civilização, cultura, religião, ciência, tecnologia, a mesma mensagem é propaganda duma forma profundamente manipuladora. Obedece, Não penses. Não duvides. Tens esses brinquedos para te divertires. Nós damos-te a informação que necessitas para a tua curta vida. A felicidade está na ignorância.

Recuso-me à perda da informação escrita. Neste caso, aos jornais concelhios. Onde coloco O Riachense. Não há muito, dizia-me um amigo: não leio a imprensa concelhia, demasiado restritiva, só dedicada a festarolas, convívios, inaugurações, guerrinhas intestinas entre castas e tribos paroquiais. Leio um jornal diário e vejo um noticiário. 

Penso que esse meu amigo não tem razão. A importância dum órgão informativo numa freguesia, num concelho, é inelutável. Ele liga o que está separado, o que é distante, o que se desconhece, o que se perdeu de vista. Mantém a humanidade na vida colectiva. Mantém a sociedade na sua globalidade, a ideia da diferença na sua essência democrática. A informação nacional, todos o sabem por experiência, pouco ou nada se identifica com a nossa existência concelhia. Liga-nos ao mundo, mas não nos liga a nós. Aí está o papel imprescindível da imprensa concelhia. Dar a conhecer o local à cidade, a cidade ao país. Eis o papel principal da imprensa concelhia, de O Riachense. 

Sem ele, sem o que expõe, polemiza, informa, critica, quem quereria saber dos problemas da freguesia?

Compete aos órgãos municipais, das juntas, assembleias, aos executivos camarários, regiões, compreender como a vida e a morte das localidades dependem dos meios de comunicação. Como a democracia está intimamente relacionada com o jornal em papel que circula. Há verbas para tudo. A festa da Benção do Gado vai receber - e é justo - um subsídio de 40 mil euros, sem o qual dificilmente avançaria com programa delineado. Mas a imprensa que a publicita está condenada à inexistência? Os poderes que, hoje, existem, porque há diferença de opinião, sem essa imprensa, não estarão a abrir as portas à sua extinção? 

Será por acaso que nos países onde renasce o autoritarismo, a segregação social, o fundamentalismo nacionalista, as guerras religiosas, só há informação manipulada e sob o controlo do ditador ou das elites do poder?

O Riachense, como imprensa escrita, não pode morrer. Em nome da própria vida da freguesia.

25 de Fevereiro de 2016
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

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