o riachense

TerÁa,
20 de Novembro de 2018
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Jo√£o Moreira

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Temos P76 a mais

De médico e de louco

N√£o, os P76 n√£o s√£o ca√ßas da For√ßa A√©rea. A designa√ß√£o faz lembrar algo que o Dr Paulo Portas poderia ter encomendado para juntar √† sua colec√ß√£o de submarinos, mas n√£o √©. P76 √© o c√≥digo internacional em Cuidados de Sa√ļde Prim√°rios para perturba√ß√Ķes depressivas. Algo que Portugal parece produzir em abund√Ęncia.

A Telma e a Patr√≠cia s√£o duas mulheres entre os trinta e os quarenta e poucos anos. Tanto quanto sei n√£o se conhecem. Entram no gabinete de consulta com talvez menos de uma hora de diferen√ßa e contam hist√≥rias quase id√™nticas. Ambas trabalham em pequenas empresas ligadas a com√©rcio e servi√ßos e descrevem como nos √ļltimos anos lhes tem sido pedido para realizarem mais e mais trabalho, enquanto perdem cada vez mais regalias. Ambas t√™m sido regularmente insultadas, for√ßadas a realizar tarefas que consideram degradantes ou a trabalhar muito para al√©m do hor√°rio acordado.¬†

Telma chorava sem parar enquanto descrevia como nos √ļltimos seis meses apenas recebeu pequenas parcelas do ordenado e como foi insultada quando pediu que regularizassem a situa√ß√£o; contou que pensava n√£o se tratar de um problema de liquidez mas antes de uma estrat√©gia para a for√ßar a sair sem despedimento e como tal sem qualquer indemniza√ß√£o (ou sequer elegibilidade para subs√≠dio de desemprego); contou como demorou a pedir ajuda legal por esperan√ßa que a situa√ß√£o se alterasse, e como essa ajuda parecia nunca chegar; por fim contou como j√° n√£o conseguia dormir ou comer, como chorava continuamente enquanto pensava em formas de pagar contas de mercearia, √°gua, electricidade e sobretudo a presta√ß√£o da casa que o banco j√° amea√ßava retomar.

Hist√≥rias como estas s√£o hoje tristemente frequentes. Sei que estou apenas a ouvir uma parte da hist√≥ria mas tamb√©m sei que estas pessoas t√™m poucas raz√Ķes para mentir. E, olhos nos olhos, n√£o fico com grandes d√ļvidas de que o que ouvi √© no essencial verdadeiro.

Do ponto de vista m√©dico o desafio √© decidir o que oferecer a estas pessoas. Estamos a falar de doentes sem hist√≥ria de doen√ßa mental, com queixas depressivas reactivas a um problema bem identificado. T√™m medo da toma de antidepressivos pelo mito generalizado de que, de alguma forma, um comprimido os v√° tornar em robots incapazes de sentir ou tomar decis√Ķes por si mesmos. Por outro lado sentem-se no limite das for√ßas e entendem que precisam de ajuda. Por muita empatia que tenha n√£o posso colocar-me na pele do outro, n√£o posso medir o sofrimento por que est√° a passar como quem mede a tens√£o arterial. A abordagem √© simples: explicar as vantagens e desvantagens do tratamento com f√°rmacos e do tratamento estritamente psicol√≥gico / psicoterap√™utico e deixar o doente decidir por si. F√°cil, democr√°tico e (sobretudo) eficaz.

Enquanto cidad√£o a reflex√£o que esta situa√ß√£o me causa √© bem diferente. A ‚Äúcrise‚ÄĚ n√£o justifica tudo. Para algumas pessoas tratou-se apenas de uma desculpa para libertarem sem medo o que de pior t√™m dentro delas. Tornou-se f√°cil contratar m√£o-de-obra quase escrava, a pre√ßo de saldo e com zero direitos laborais. Estagi√°rios, falsos recibos verdes, programas de ocupa√ß√£o de tempos livres a ocuparem postos de trabalho permanentes, enfermeiros e engenheiros a receber pouco acima do ordenado m√≠nimo. O que falta n√£o √© dinheiro, s√£o valores. E enquanto sociedade cabe-nos encontrar formas de proteger quem precisa ser protegido.

Gerir um negócio deve ser bastante difícil e certamente que a maioria dos empresários não merece ser acusado de atitudes como estas. Em relação aos outros temos de fazer algo. Sob pena de termos valores a menos e P76 a mais.

 

Actualizado em ( Quinta, 07 Janeiro 2016 12:39 )  
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