o riachense

Segunda,
21 de Janeiro de 2019
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João Moreira

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Temos P76 a mais

De médico e de louco

Não, os P76 não são caças da Força Aérea. A designação faz lembrar algo que o Dr Paulo Portas poderia ter encomendado para juntar à sua colecção de submarinos, mas não é. P76 é o código internacional em Cuidados de Saúde Primários para perturbações depressivas. Algo que Portugal parece produzir em abundância.

A Telma e a Patrícia são duas mulheres entre os trinta e os quarenta e poucos anos. Tanto quanto sei não se conhecem. Entram no gabinete de consulta com talvez menos de uma hora de diferença e contam histórias quase idênticas. Ambas trabalham em pequenas empresas ligadas a comércio e serviços e descrevem como nos últimos anos lhes tem sido pedido para realizarem mais e mais trabalho, enquanto perdem cada vez mais regalias. Ambas têm sido regularmente insultadas, forçadas a realizar tarefas que consideram degradantes ou a trabalhar muito para além do horário acordado. 

Telma chorava sem parar enquanto descrevia como nos últimos seis meses apenas recebeu pequenas parcelas do ordenado e como foi insultada quando pediu que regularizassem a situação; contou que pensava não se tratar de um problema de liquidez mas antes de uma estratégia para a forçar a sair sem despedimento e como tal sem qualquer indemnização (ou sequer elegibilidade para subsídio de desemprego); contou como demorou a pedir ajuda legal por esperança que a situação se alterasse, e como essa ajuda parecia nunca chegar; por fim contou como já não conseguia dormir ou comer, como chorava continuamente enquanto pensava em formas de pagar contas de mercearia, água, electricidade e sobretudo a prestação da casa que o banco já ameaçava retomar.

Histórias como estas são hoje tristemente frequentes. Sei que estou apenas a ouvir uma parte da história mas também sei que estas pessoas têm poucas razões para mentir. E, olhos nos olhos, não fico com grandes dúvidas de que o que ouvi é no essencial verdadeiro.

Do ponto de vista médico o desafio é decidir o que oferecer a estas pessoas. Estamos a falar de doentes sem história de doença mental, com queixas depressivas reactivas a um problema bem identificado. Têm medo da toma de antidepressivos pelo mito generalizado de que, de alguma forma, um comprimido os vá tornar em robots incapazes de sentir ou tomar decisões por si mesmos. Por outro lado sentem-se no limite das forças e entendem que precisam de ajuda. Por muita empatia que tenha não posso colocar-me na pele do outro, não posso medir o sofrimento por que está a passar como quem mede a tensão arterial. A abordagem é simples: explicar as vantagens e desvantagens do tratamento com fármacos e do tratamento estritamente psicológico / psicoterapêutico e deixar o doente decidir por si. Fácil, democrático e (sobretudo) eficaz.

Enquanto cidadão a reflexão que esta situação me causa é bem diferente. A “crise” não justifica tudo. Para algumas pessoas tratou-se apenas de uma desculpa para libertarem sem medo o que de pior têm dentro delas. Tornou-se fácil contratar mão-de-obra quase escrava, a preço de saldo e com zero direitos laborais. Estagiários, falsos recibos verdes, programas de ocupação de tempos livres a ocuparem postos de trabalho permanentes, enfermeiros e engenheiros a receber pouco acima do ordenado mínimo. O que falta não é dinheiro, são valores. E enquanto sociedade cabe-nos encontrar formas de proteger quem precisa ser protegido.

Gerir um negócio deve ser bastante difícil e certamente que a maioria dos empresários não merece ser acusado de atitudes como estas. Em relação aos outros temos de fazer algo. Sob pena de termos valores a menos e P76 a mais.

 

Actualizado em ( Quinta, 07 Janeiro 2016 12:39 )  
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