o riachense

Segunda,
26 de Junho de 2017
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Mário da Luz, boieiro: “Na Festa só queria levar os bois daqui até ao Largo, mas não posso”

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Quando se fala com o Mário da Luz sobre os bois, sobre o seu trabalho de boieiro e sobre a Festa da Bênção do Gado o seu rosto muda de feição, revela-se um brilho intenso no olhar e a emoção toma conta de si. A voz embarga-se e as palavras enrolam-se na impotência que sente ao falar da sua grande paixão e não conseguir cumprir o seu grande desejo. 
Carlos Tomé 
 
Em 2008, quando terminou a Festa da Bênção do Gado, Mário da Luz afirmava que só queria viver mais quatro anos para participar na condução dos bois em mais um cortejo da Bênção. Parte do seu desejo será cumprido, com toda a certeza, pois irá por certo participar na Festa, seja de que forma for. Mas ao seu maior desejo, na sua própria opinião, não lhe poderá chegar. Levar este gado não é tarefa fácil e só alguém muito experimentado na arte e com destreza e genica pode conduzir uma junta de bois. E a cadeira de rodas agarra-se como lapa ao seu corpo de tal modo que não o deixa caminhar pelos seus próprios meios. 
 
Mário da Luz tem perfeita noção das suas actuais limitações. A cadeira de rodas que maneja já com alguma perícia e que o transporta do quarto para a sala e pelos corredores fora mas que não lhe permite andar sozinho e com suficiente força nas pernas, impede-o de conduzir os bois durante o cortejo. Consequência de maleita ingrata, o boieiro conduz agora a sua própria cadeira de roda, e o que queria era apenas conduzir os seus bois. Satisfazer a sua grande paixão. 
 
Quando se apercebe desta limitação e como isso choca com o seu grande desejo, Mário da Luz não consegue conter a emoção “a Festa para mim é levar os bois. Só que eu fosse capaz de os levar daqui (Centro Paroquial) até ao Largo, já era muito bom, mas não posso. Mas eu hei-de ir à Festa de qualquer maneira, só se morrer antes disso é que não vou.”
 

Então e quando se questiona sobre quem o pode substituir na função de boieiro na Festa, Mário da Luz responde de imediato que o filho do José Mendes tem condições para isso. É um rapaz com genica é certo. Mas, e dos antigos boieiros já não existe ninguém que tenha possibilidades de cumprir essa tarefa, pergunta-se.”Vivos ainda cá estão o António Mendes e eu mas já não estamos em condições”.
 
De facto, conduzir uma junta de bois não é coisa fácil. É preciso conhecer muito bem os animais, facilitar a comunicação, saber falar-lhes, ter pulso para os orientar, conhecer as suas manhas, as suas manias, cuidar deles como colegas de trabalho solidário, como amigos de todos os dias.
 
É o Castanho e o Galante. Os nomes dos bois de trabalho, companheiros inseparáveis do boieiro nos bons e nos maus momentos da vida, nunca variavam muito e eles respondem sempre pelo nome, habituam-se ao sussurrar no ouvido, afeiçoam-se ao seu companheiro, falam a mesma linguagem.
 
“Os bois foram sempre a minha paixão. E ainda são. Eu fugia à escola só para andar com os bois. Os meus mestres foram os meus tios. Comecei aos 13 anos. Com essa idade já carregava o carro de bois de cortiça. Ia muita vez à Praia do Ribatejo carregar as pranchas de madeira que vinham em jangadas pelo rio Tejo e depois transportava-as no carro de bois. Era um trabalho difícil. Se calhar foi aí que eu arranjei este problema na perna”, relembra Mário da Luz com a memória viva dos seus actuais 83 anos. 
“Mas estes dois que são do meu neto não estão capazes de ir ao cortejo”. Então explique-nos lá porquê. Têm sido mal tratados? Não são dados às passeatas? Não gostam de ser benzidos? “Não é isso, é que há um deles que marra. E quando é assim não há hipóteses, não há nada a fazer. Mas o homem que me arranjou estes, o Tonho Mau, também arranja outra junta já treinada se for preciso. Portanto, por aí também não há problema”, fala a experiência de Mário da Luz que confessa ter andado a treiná-los para a outra Festa durante tantos meses que “àqueles bois só faltava falar”.
 
Um dia, há pouco tempo, os bois cansaram-se de estar no palheiro e fugiram do quintal, se calhar à procura de outras companhias, mas Mário da Luz não se afligiu, manteve a calma e chamou um deles pelo nome e os bois vieram pachorrentemente ter consigo. “Ramalhete então foste para aí? Anda vem-te embora” e eles obedeceram não tendo criado qualquer problema. Houve até alguém que viu e questionou o boieiro se não lhes batia e Mário da Luz disse que os bois não se tratavam assim que nunca pensou em bater neles.
 
Porque os companheiros de sempre, os bois de trabalho, devem ser compreendidos e respeitados por quem por eles tem a maior paixão. A sua paixão faz já parte da nossa memória colectiva. Por ela passa a vida destas gentes. E pela vida deste boieiro passa uma parte fundamental da história de Riachos rural. Abençoado gado. Abençoado boieiro.
 

Actualizado em ( Sexta, 25 Novembro 2016 11:33 )  

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