o riachense

TerÁa,
20 de Novembro de 2018
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O Medidor de Passos: olhos nos olhos para recuperar a dignidade do melodrama

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Depois das peças do Teatro Meia Via e do Teatro Experimental de Riachos, O Medidor de Passos vai encerrar a mostra de teatro feito no concelho, dia 26 de Março, no Teatro Virgínia

Um ano depois da experi√™ncia de O F√≠sico, o grupo que criou esse espect√°culo que obteve tanto acolhimento do p√ļblico na sua √ļnica apresenta√ß√£o no¬†Teatro Virg√≠nia, prepara-se para apresentar uma nova pe√ßa. Ao contr√°rio da com√©dia de desconstru√ß√£o que fez arrancar, de forma ambiciosa, um novo grupo de teatro ancorado nos talentos de Jo√£o Luz, Hugo Gama e Marta Tom√© (que chamamos de encenadores), O Medidor de Passos √© um melodrama que se debru√ßa no amor.
 
O processo de constru√ß√£o do espect√°culo, partilhado por actores e encenadores, a ‚Äúco-cria√ß√£o‚ÄĚ (sobre isto leia-se a¬†reportagem feita sobre O F√≠sico h√° um ano), √© a caracter√≠stica mais marcante deste trabalho. E, tal como h√° um ano, falar desta pe√ßa e do seu tema passa grandemente por reflectir sobre como esse m√©todo influiu no resultado final.
 
A pe√ßa est√° estruturada em onze blocos, em que cada bloco √© um texto, um mon√≥logo, um poema, um cap√≠tulo, isto segundo as diferentes palavras utilizadas para a descrever por v√°rias pessoas envolvidas, actores e encenadores. Uma sucess√£o de poemas, ou de ‚Äúprosas po√©ticas‚ÄĚ, uns exploram ideias mais abstractas e outros ideias mais concretas revela Jo√£o Luz, que os escreveu nesta que √© a sua segunda experi√™ncia em teatro. Apesar de n√£o existir uma estrutura narrativa cl√°ssica √≥bvia nesta pe√ßa, porque cada mon√≥logo √© uma hist√≥ria aut√≥noma, h√° pontes entre eles, evidentes, pelo menos, no estilo de escrita. √Č uma linguagem muito simples, testemunham agora os actores, muito terra-a-terra, que permite a um espectador desligar-se de uma hist√≥ria mas apanhar a seguinte. ‚ÄúO facto de ter diversas hist√≥rias √© uma das riquezas da pe√ßa, o espectador pode encontrar viv√™ncias suas em v√°rias hist√≥rias, e aspectos que o fazem reflectir‚ÄĚ, diz um actor.
 
Mas estamos a falar de qu√™ exactamente? Do tema do amor e do prop√≥sito de ‚Äúrecuperar a dignidade do melodrama‚ÄĚ, que caiu em desgra√ßa e que, quando hoje ouvimos falar nele a prop√≥sito de um filme ou pe√ßa, dizemos que √© lamechas. Recuperar o g√©nero foi um objectivo assumido, porque ‚Äún√£o seguimos modas‚ÄĚ. H√° nos textos muitas refer√™ncias ao campo, alus√Ķes buc√≥licas que, por serem rom√Ęnticas por natureza, s√£o √≥ptimas para os textos de O Medidor de Passos.
 
Mas, porque os produtores s√£o pessoas avisadas, h√° o receio de se tornar piroso. Esse √© sempre um risco incontorn√°vel nas pe√ßas que falam de amor pois, como diz a C√°tia Freitas, uma das actrizes, ‚Äúo amor n√£o √© explicado, √© sentido. N√£o h√° ci√™ncia que o explique, o teatro pode corporiz√°-lo, mas n√£o explic√°-lo‚ÄĚ. J√° a Marta Silva come√ßou a corar enquanto confessava que cora nos ensaios enquanto diz o seu texto. ‚ÄúS√£o coisas muito √≠ntimas que n√£o se dizem √†s pessoas‚ÄĚ diz, e muito menos em p√ļblico, olhos nos olhos. √Č dif√≠cil faz√™-lo com √≠ntimos, quanto mais com estranhos.
Mas para se ser actor, passa-se por isso mesmo. Os onze mon√≥logos s√£o ditos pelos onze actores, que assumiram este exigente desafio que os faz dar mais um passo em frente no teatro amador. Ainda sobre o ruborizar da Marta, o Hugo Gama serve para tratar destas como√ß√Ķes, ‚Äúh√° que segurar este tipo de emo√ß√Ķes‚ÄĚ, diz ele, e confirma-o a Cl√°udia Lopes, de 18 anos, quando ensaia o seu mon√≥logo de forma impressionante.
 
Nesta experi√™ncia, o processo misturou-se com o conte√ļdo e, apesar de os textos originais de Jo√£o Luz n√£o terem sido modificados, a tal co-cria√ß√£o baseou-se na acomoda√ß√£o dos actores aos textos e na procura da forma de os conseguirem dizer. O t√≠tulo da pe√ßa fala disso mesmo, de medir os passos ‚Äúno nosso percurso de vida somos todos mais ou menos calculistas, estamos sempre a tentar situar-nos em rela√ß√£o aos outros. (‚Ķ) Estamos sempre a tentar saber onde √© que vamos p√īr o p√©, tendo em vista o lugar em que nos sentimos bem‚ÄĚ, esclarece o autor.
 
O movimento e a ‚Äúconsci√™ncia corporal‚ÄĚ s√£o pois a ter√ßa parte deste trabalho, da responsabilidade da Marta Tom√©, que, com os actores, primeiro trabalha ‚Äúa esfera individual e depois o di√°logo, a tal negocia√ß√£o que levar√° ou √† ruptura ou consigna√ß√£o‚ÄĚ. Existe uma componente v√≠deo e uma banda sonora ‚Äúmuito melodrama de Hollywood‚ÄĚ (Jo√£o Luz confessou ter escrito os textos a ouvir bandas sonoras de filmes). Cada hist√≥ria tem um v√≠deo de um solo, tendo a Marta ajudado os actores a conseguirem ‚Äúler mentalmente‚ÄĚ o texto enquanto fazem a sua performance e a fazerem uma ‚Äútradu√ß√£o corporal das frases‚ÄĚ.
 
Aqui os actores s√£o tamb√©m dramaturgos, relembra o Gama. No teatro ‚Äúas pessoas t√™m tend√™ncia de serem mandadas. Aqui os encenadores assumem uma postura mais de condutores, de orienta√ß√£o‚ÄĚ.
 
‚ÄúFoi muito generoso da parte deles acertar a maneira de interpretar cada um‚ÄĚ, refere a Carla Pinto sobre o trabalho dos encenadores. A C√°tia chegou a trocar de texto porque ‚Äúo lugar dela‚ÄĚ n√£o era aquele. Quando leu o novo texto disse logo: ‚Äúeste texto √© meu‚ÄĚ, e encontrou o seu ‚Äúser da personagem‚ÄĚ. Trata-se de uma ‚Äúbusca da verdade‚ÄĚ, do melhor lugar que nos define, num permanente interc√Ęmbio e negocia√ß√£o. ‚ÄúA partir do momento em que nos damos a conhecer, √© pelo confronto com o outro que os lugares se moldam‚ÄĚ, como na vida real, particularmente no amor.

Olhos nos olhos nas escolas
A semanas da estreia, o grupo de actores e encenadores deu in√≠cio ao contacto com o p√ļblico atrav√©s de workshops nas escolas. A primeira oficina foi na Escola Profissional de Torres Novas, no √Ęmbito do curso de anima√ß√£o, e agendaram-se mais duas sess√Ķes na Artur Gon√ßalves e na Maria Lamas.
O balan√ßo? ‚ÄúOs mi√ļdos est√£o √°vidos por uma palavra que n√£o seja hipocrisia e as pessoas s√£o as verdadeiras palavras‚ÄĚ, diz o Gama entusiasmado pela experi√™ncia que deu bons frutos na cativa√ß√£o dos interesses para o teatro. ‚ÄúIr l√° olh√°-los nos olhos e dizer coisas, com uma linguagem que toca‚ÄĚ, continua.
 
Revelou a C√°tia Freitas que o maior elogio que a pe√ßa recebeu foi dado quando os mi√ļdos que participaram na oficina se mostraram tocados pela experi√™ncia e nem quiseram quiseram ir ao intervalo.
 
  
     

Actualizado em ( Quarta, 16 Maio 2018 09:37 )  
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