o riachense

SŠbado,
23 de Setembro de 2017
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Com a calma do costume

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por Carlos Tomé

Numa sexta-feira em que se achava mais pachorrento, depois de aturar durante todo o dia o Martinho Gato, vinha dos Casais Novos deixava o Rec√īco √† sua direita bebia no Central um caf√© e saboreava uma aguardente velha CR&F em bal√£o aquecido, uma bebida s√≥ adequada aos apreciadores ou aos deuses. Bastava o aroma para se perceber que se tratava de um n√©ctar precioso. Bochechava ligeiramente para que todo o aroma intenso e sabor levemente adstringente ganhos no est√°gio de 20 anos em cascos de carvalho fossem sentidos. Ao √ļltimo gole expirava satisfa√ß√£o. O Joaquim Sopas sa√≠a do Central e dirigia-se √† Casa do Povo com a calma do costume o que deu inteira justi√ßa √† alcunha que lhe assentava como uma luva.
 
As sextas-feiras à noite eram reservadas para o ensaio do Rancho. Toda a gente rumava em romaria à Casa do Povo para assistir aos célebres ensaios. Vinha malta de todo o lado e os mais afoitos chegavam ainda antes do Américo abrir a porta. Lá dentro encostavam-se às paredes do salão embevecidos com a arte dos dançarinos. A fama do Rancho era tão grande que os dias dos treinos da equipa de futebol do União de Tomar foram mudados para que os atletas pudessem assistir ao ensaio do Rancho. Naquela noite o panorama não era diferente do habitual. A maltosa encostada à parede de boca aberta e olhos esbugalhados enfeitiçados com a graciosidade da Térinha ou da Rosário Parreira. Claro que a rapaziada da terra olhava de lado para os tomarenses e chegou a desafiar os queques que vinham da cidade do Nabão para duelos no Largo. Mas nunca se chegou ao confronto físico porque os jogadores tinham medo do enxerto de porrada que levariam pela certa, o que os impediria de jogar no domingo seguinte.

Mas o ambiente aquecia ainda mais sempre que o Z√© Taberna se animava e agarrava no par pela cintura rodopiando no Fado do Ti Z√© Lu√≠s t√£o depressa que desenroscava da cintura a cinta formando com ela um tapete vermelho que chegava √† taberna do Z√© das Galinhas e raspava pelos curiosos com a for√ßa de uma m√°quina de limpar azeitona, esparramando-os pelo ch√£o e deixando-os a girar como um pi√£o lan√ßado √† maneira com um bara√ßo bom. Enquanto isso, o Z√© Maria Ma√ßacoco exibia altivo e elegante a sua arte de bem dan√ßar, enquanto o Z√© Velho rejuvenescia ao rodar primorosamente com a namorada, o Manuel Bicho encantava com o seu ar distinto e de bra√ßos no ar, o Ver√≠ssimo lan√ßava em redor o seu charme tisnado de homem do campo ribatejano ao dan√ßar o fandango como ningu√©m, e tudo isto acompanhado pelo som estereof√≥nico do abano na quarta do Paco Farnel, que lhe dava naquele dia com tanta for√ßa merc√™ do entusiasmo que a quarta n√£o aguentou o √≠mpeto e desfez-se em quatro bocados, pelo clarinete mavioso e sempre presente do Martinho Ginete que s√≥ parava de vez em quando para humedecer o f√īlego, e por cima de tudo isto fazia-se ouvir a voz imaculada da Chica Alagoa, enquanto no centro da roda de dan√ßarinos bastava a presen√ßa tutelar de Joaquim Santana com o seu chap√©u de aba larga e a serenidade do costume para que os √Ęnimos acalmassem e as dan√ßas sa√≠ssem na perfei√ß√£o.
 
Na outra sala, depois de ter comprado ao Joaquim Pedro um gelado, um cubo de gelo com uma ligeira cor de groselha e um palito espetado, que era de comer e chorar por mais, com a calma do costume, Joaquim Sopas esperava a sua vez para ler o S√©culo ou o Correio do Ribatejo mas o Joaquim Nan√īrro j√° estava h√° 3 horas com o jornal aberto na mesma p√°gina e n√£o acordava nem parava de ressonar por mais que o Sopas tossisse. Os jornais repousavam espalhados em cima de uma mesa de ping pong que tinha assistido a duelos de horas entre o Giga e o Bota Abaixo dois dos melhores pingueponguistas da regi√£o, sem desmerecimento para o Z√© Maria Macol que era esquerdino, agarrava na raqueta de uma forma √ļnica e lan√ßava uns bolares com tanto efeito que o advers√°rio atirava-se para a esquerda quando a bola ia para a direita ou punha a raqueta na direita quando devia ser na esquerda, tal e qual como no poliban do Raul Solnado em que a √°gua vinha de baixo quando se pensava que vinha de cima e vice-versa. Ali√°s, o Z√© Maria era o maior a bater com o p√© esquerdo no tabuado do primeiro andar da sede do Atl√©tico de cada vez que fazia um puxan√ßo e fazia-o com tanta for√ßa que chegou a obrigar o Mesquita a refor√ßar o tecto do bar para que o atleta n√£o fizesse um buraco no soalho e ca√≠sse de esgalha pau no colo do Manuel Couve que n√£o faltava com este escriba √†s sextas √† noite a uns belos b√ļzios com mostarda.
 
Quando o ensaio acabou o despertador biol√≥gico do Nan√īrro tocou e este acordou de repente, consertou os √≥culos e continuou a ler o jornal como se n√£o fosse nada com ele. Nessa ocasi√£o, o Am√©rico fez um sinal secreto ao Joaquim Sopas e este saiu da sala com a calma do costume, sem ter conseguido ler o jornal. Foi √† Raposa acompanhar a namorada e no regresso parou novamente no Central para carregar baterias com mais uma CR&F, seguindo depois rumo aos Casais Novos. Ligou o gira discos limpou cuidadosamente o vinil do M√°rio Viegas e, baixinho para n√£o acordar o Z√© da Serradinha que dormia no quarto ao lado, come√ßou a ouvir o Opi√°rio do √Ālvaro de Campos ‚Äú√Č antes do √≥pio que minh‚Äôalma √© doente, sentir a vida convalesce e estiola, e eu vou buscar ao √≥pio que consola, um Oriente ao oriente do Oriente‚ÄĚ. E depois do desassossego pessoano e da inquieta√ß√£o l√° dentro, vinha a serenidade suave com o poema de Raul de Carvalho na voz do grande Viegas. "Para sempre irreal, para sempre obscena, para sempre inocente. Serenidade, √©s minha." A poesia no sil√™ncio. A calma do costume, como se estivesse a fumar um cachimbo de √≥pio ou a beber uma aguardente velha CR&F em bal√£o aquecido.
 
Actualizado em ( Quarta, 11 Mar√ßo 2015 10:20 )  

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