o riachense

Segunda,
29 de Maio de 2017
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Com a calma do costume

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por Carlos Tomé

Numa sexta-feira em que se achava mais pachorrento, depois de aturar durante todo o dia o Martinho Gato, vinha dos Casais Novos deixava o Recôco à sua direita bebia no Central um café e saboreava uma aguardente velha CR&F em balão aquecido, uma bebida só adequada aos apreciadores ou aos deuses. Bastava o aroma para se perceber que se tratava de um néctar precioso. Bochechava ligeiramente para que todo o aroma intenso e sabor levemente adstringente ganhos no estágio de 20 anos em cascos de carvalho fossem sentidos. Ao último gole expirava satisfação. O Joaquim Sopas saía do Central e dirigia-se à Casa do Povo com a calma do costume o que deu inteira justiça à alcunha que lhe assentava como uma luva.
 
As sextas-feiras à noite eram reservadas para o ensaio do Rancho. Toda a gente rumava em romaria à Casa do Povo para assistir aos célebres ensaios. Vinha malta de todo o lado e os mais afoitos chegavam ainda antes do Américo abrir a porta. Lá dentro encostavam-se às paredes do salão embevecidos com a arte dos dançarinos. A fama do Rancho era tão grande que os dias dos treinos da equipa de futebol do União de Tomar foram mudados para que os atletas pudessem assistir ao ensaio do Rancho. Naquela noite o panorama não era diferente do habitual. A maltosa encostada à parede de boca aberta e olhos esbugalhados enfeitiçados com a graciosidade da Térinha ou da Rosário Parreira. Claro que a rapaziada da terra olhava de lado para os tomarenses e chegou a desafiar os queques que vinham da cidade do Nabão para duelos no Largo. Mas nunca se chegou ao confronto físico porque os jogadores tinham medo do enxerto de porrada que levariam pela certa, o que os impediria de jogar no domingo seguinte.

Mas o ambiente aquecia ainda mais sempre que o Zé Taberna se animava e agarrava no par pela cintura rodopiando no Fado do Ti Zé Luís tão depressa que desenroscava da cintura a cinta formando com ela um tapete vermelho que chegava à taberna do Zé das Galinhas e raspava pelos curiosos com a força de uma máquina de limpar azeitona, esparramando-os pelo chão e deixando-os a girar como um pião lançado à maneira com um baraço bom. Enquanto isso, o Zé Maria Maçacoco exibia altivo e elegante a sua arte de bem dançar, enquanto o Zé Velho rejuvenescia ao rodar primorosamente com a namorada, o Manuel Bicho encantava com o seu ar distinto e de braços no ar, o Veríssimo lançava em redor o seu charme tisnado de homem do campo ribatejano ao dançar o fandango como ninguém, e tudo isto acompanhado pelo som estereofónico do abano na quarta do Paco Farnel, que lhe dava naquele dia com tanta força mercê do entusiasmo que a quarta não aguentou o ímpeto e desfez-se em quatro bocados, pelo clarinete mavioso e sempre presente do Martinho Ginete que só parava de vez em quando para humedecer o fôlego, e por cima de tudo isto fazia-se ouvir a voz imaculada da Chica Alagoa, enquanto no centro da roda de dançarinos bastava a presença tutelar de Joaquim Santana com o seu chapéu de aba larga e a serenidade do costume para que os ânimos acalmassem e as danças saíssem na perfeição.
 
Na outra sala, depois de ter comprado ao Joaquim Pedro um gelado, um cubo de gelo com uma ligeira cor de groselha e um palito espetado, que era de comer e chorar por mais, com a calma do costume, Joaquim Sopas esperava a sua vez para ler o Século ou o Correio do Ribatejo mas o Joaquim Nanôrro já estava há 3 horas com o jornal aberto na mesma página e não acordava nem parava de ressonar por mais que o Sopas tossisse. Os jornais repousavam espalhados em cima de uma mesa de ping pong que tinha assistido a duelos de horas entre o Giga e o Bota Abaixo dois dos melhores pingueponguistas da região, sem desmerecimento para o Zé Maria Macol que era esquerdino, agarrava na raqueta de uma forma única e lançava uns bolares com tanto efeito que o adversário atirava-se para a esquerda quando a bola ia para a direita ou punha a raqueta na direita quando devia ser na esquerda, tal e qual como no poliban do Raul Solnado em que a água vinha de baixo quando se pensava que vinha de cima e vice-versa. Aliás, o Zé Maria era o maior a bater com o pé esquerdo no tabuado do primeiro andar da sede do Atlético de cada vez que fazia um puxanço e fazia-o com tanta força que chegou a obrigar o Mesquita a reforçar o tecto do bar para que o atleta não fizesse um buraco no soalho e caísse de esgalha pau no colo do Manuel Couve que não faltava com este escriba às sextas à noite a uns belos búzios com mostarda.
 
Quando o ensaio acabou o despertador biológico do Nanôrro tocou e este acordou de repente, consertou os óculos e continuou a ler o jornal como se não fosse nada com ele. Nessa ocasião, o Américo fez um sinal secreto ao Joaquim Sopas e este saiu da sala com a calma do costume, sem ter conseguido ler o jornal. Foi à Raposa acompanhar a namorada e no regresso parou novamente no Central para carregar baterias com mais uma CR&F, seguindo depois rumo aos Casais Novos. Ligou o gira discos limpou cuidadosamente o vinil do Mário Viegas e, baixinho para não acordar o Zé da Serradinha que dormia no quarto ao lado, começou a ouvir o Opiário do Álvaro de Campos “É antes do ópio que minh’alma é doente, sentir a vida convalesce e estiola, e eu vou buscar ao ópio que consola, um Oriente ao oriente do Oriente”. E depois do desassossego pessoano e da inquietação lá dentro, vinha a serenidade suave com o poema de Raul de Carvalho na voz do grande Viegas. "Para sempre irreal, para sempre obscena, para sempre inocente. Serenidade, és minha." A poesia no silêncio. A calma do costume, como se estivesse a fumar um cachimbo de ópio ou a beber uma aguardente velha CR&F em balão aquecido.
 
Actualizado em ( Quarta, 11 Março 2015 10:20 )  

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