o riachense

SŠbado,
23 de Setembro de 2017
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Saiu uma ginja nos furos da Engr√°cia

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por Carlos Tomé

Andei dias seguidos a ganhar coragem para entrar na loja e tirar um furo. Foi nesse dia. A Engr√°cia mais o seu bu√ßo amedrontava qualquer cachopo que entrasse ali com camisa de folhos, cabelo a brilhar de brilhantina, sovacos que emba√ßavam a patcholi e cal√ßas √† boca-de-sino de alto l√° com elas. Entrei mais nervoso que num exame. O bu√ßo dela fixou-se no meu que deixara crescer h√° meses sem sucesso vis√≠vel e cuspiu bruscamente ‚Äúdiz l√° o que √© que queres?‚ÄĚ. Tirei cinco furos. Tr√™s foram directamente parar ao vazio, no pen√ļltimo saiu-me um pente e no √ļltimo a j√≥ia da coroa: uma ginja. Finalmente uma ginja, coisa in√©dita. Nem queria acreditar. Nunca tinha sa√≠do uma ginja nos furos da Engr√°cia. A Engr√°cia, mal refeita do acontecimento, fuzilou-me com o olhar e deitou m√£o a um copo que n√£o era maior que um dedal mas que me pareceu do tamanho da pra√ßa de touros da Barquinha passou-o pelo alguidar de √°gua choca e encheu-o com o n√©ctar. Foi um acontecimento √ļnico. Uma experi√™ncia extraordin√°ria. O n√©ctar escorreu directamente da goela para o esp√≠rito e ascendeu comigo √†s nuvens. A minha primeira ginja aproximou-me dos homens a s√©rio que emborcavam uma selha de uma vez sem pestanejar. Sa√≠ da loja da Engr√°cia em pleno Largo com as m√£os nos bolsos e a tentar acertar o passo. O bafo a ginja era grandioso. E desejei que fosse eterno. Algu√©m se apercebeu, certamente pelo meu ar aparvalhado, de que algo de anormal se passara. A not√≠cia espalhou-se pelo Largo como fogo em palha de palheiro e o inevit√°vel aconteceu.

O Z√© Negro, que se preparava para emborcar mais uma selha no Z√© das Galinhas, quando soube da boa nova deitou a cabe√ßa de fora e lan√ßou o grito de guerra ‚Äúl√° vai boina‚ÄĚ enquanto lan√ßava a dita cuja em rodopio pelo ar. E pronto come√ßou a guerra. Em menos de um f√≥sforo o Largo encheu-se de gente. O Manuel Barroca espreitou √† porta do Caf√© Lez√≠ria e foi a correr ver qual era o primo a quem tinha sa√≠do a ginja, porque o Barroca era primo de toda a gente, enquanto dizia para o J√ļlio Amado ‚Äú√≤ J√ļlio toma a√≠ conta do Caf√© que eu vou ver o que se passa‚ÄĚ; o Enxuto que j√° andava quase s√£o h√° duas horas, gra√ßas a uma dieta alco√≥lica receitada pela Bruxa do Pego, voltou √† mesma cegueira perguntando a toda a gente ‚Äúonde √© que t√° a ginja onde √©?‚ÄĚ; o Quimbr√£o que tinha passado a noite ao relento numa valeta do Largo a curar uma m√° disposi√ß√£o por mor do √ļltimo meio litro que lhe caiu mal, acordou mal humorado por causa da barulheira e rosnou ‚Äúj√° n√£o se pode dormir em paz‚ÄĚ; o Z√© Paula largou tudo e foi a toque de caixa para o Largo deixando a taberna entregue aos clientes que puseram de calhostras um pipo de vinho novo antes do taberneiro regressar; o Alberto Mocho que gostava pouco de confus√Ķes fechou de repente a porta do Caf√© Ideal como se fosse um funeral a passar; o Joaquim Paloca atirou a malha do jogo do burro ao calhas acertando de rasp√£o no Chico Cego que andava a distribuir os folhetos do Cinema Ol√≠mpia arriscado a ficar ainda mais cego; o Mira da farm√°cia, que tinha prometido a vinte e sete clientes s√≥ nesse dia que os rem√©dios vinham na camioneta das seis, deixou o lagarto fugir do frasco de formol ao espreitar a confus√£o com esperan√ßa que os Claras j√° n√£o fizessem essa carreira. Num √°pice o Largo ficou repleto. O povo dava vivas de alegria. O furor foi tanto que at√© apareceu o Manuel Pacheco equipado de vermelho e com o cachecol do Benfica julgando que o glorioso j√° tinha ganho o campeonato e os benfiquistas comemoravam o feito, como haveriam de fazer quatro d√©cadas depois no Marqu√™s de Pombal.

A Engrácia esgotou os furos. E saiu de tudo menos mais ginjas. A revolta foi tal que a Engrácia foi apelidada de bruxa e arriscou-se a ser julgada pelo Santo Ofício e a ser queimada viva. O que valeu foi o discernimento do António Barrão ao lembrar que o vinho tinto era muito melhor que a ginja. E graças a essa evidência foi a debandada geral.

Na segunda-feira seguinte eu haveria de dar uso decente ao pente do furo da Engrácia, depois de passar o fim-de-semana a limar o cabelo cortado à tijela no Mudo. No Calhambeque, uma casa de venda de gasosas e sandes de mortadela e onde a malta ia ouvir na jukebox o In the Summertime dos Mungo Jerry e passava as tardes a jogar snooker e matraquilhos, em vez de aturar o Jacob e o Pipi Fonfon no Liceu Sá da Bandeira, consegui meter o estimado pente, ao qual retirei delicadamente os dentes, na ranhura das moedas de cinco escudos do jogo de matraquilhos. A medo, não fosse o zarolho dar pela marosca, o jogo lá vomitou cá para fora as 10 bolas que haveriam de fazer suar o jogador mais calmo. Claro que o desafio foi rápido porque as aulas já iam a meio, mas não tão veloz como o Vítor Gomes a descer na bolina a ladeira do Liceu até à estação dos comboios, a fugir do Clementino de avental, em sete minutos e doze segundos que ainda hoje é recorde em Santarém.

No Liceu o almo√ßo era s√≥ futebol. Naquele dia, o Manuel Jo√£o Quartilho, um verdadeiro artista da bola, pegou nela com os dois p√©s, passou-a por cima de tr√™s advers√°rios que os deixou com torcicolos no pesco√ßo, driblou quatro desgra√ßados que ficaram com os olhos tortos como se estivessem a olhar contra o governo e chutou-a directamente para a janela do laborat√≥rio de qu√≠mica com tanta for√ßa que derreteu os tubos de ensaio, dizimou as pipetas cheias de uma solu√ß√£o de per√≥xido de hidrog√©nio, dizimou o almofariz repleto de sulfato de s√≥dio e derreteu o cautchou no Bico de Bunsen. A jogatana foi admir√°vel, um feito iglant√≥nico aplaudido por todos, pelo que nunca se percebeu por que raz√£o o professor Lic√≠nio, o especialista da qu√≠mica, ficou √† beira de um ataque de nervos, qual Heisenberg do Breaking Bad em f√ļria.

Cheguei √† esta√ß√£o, na qual o Jaime Bruto ainda n√£o tinha pintado o nome de Riachos, depois de passar por Vale de Figueira e Mato de Miranda. Ao entrar no Central olhei para a caixa dos furos da Regina e lembrei-me logo dos furos da Engr√°cia. E veio-me √† boca, pela primeira vez, o verdadeiro sabor do dito popular ‚Äúcaiu que nem ginjas‚ÄĚ.

Actualizado em ( Quarta, 11 Mar√ßo 2015 10:17 )  

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