o riachense

Sexta,
28 de Julho de 2017
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Esta vida é uma porra imensa e absoluta

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por Carlos Tomé

Estava eu a prender os reposteiros com fitas de plástico de várias cores nas janelas do Central, por mor do mosquedo, quando avistei o Luís Panhol na sua bicicleta de corrida com guiador curvo em grande velocidade a descer do Largo todo tombado sobre a máquina e a pedalar como gente graúda. Boné na cabeça com a pala virada para trás, uma camisa justa ao tronco mas aberta na peitaça e umas calças à boca-de-sino mas enroladas na canela e metidas por dentro das meias brancas, o que fazia sempre que se esquecia das molas da roupa em casa. Luís Panhol era o maior ciclista da região. Era um ciclista a sério. Não usava fitinhas ridículas nos punhos do guiador nem um mariconço moinho de vento feito em cana e papel de revista no guiador ao lado da campainha. Saía do Alves das Lãs na vila às cinco da tarde e quando o relógio da igreja nova acabava de dar a quinta badalada, era mais que certo que o camisola amarela cortava a meta na rua do Sargaço. Fazia o circuito todo num autêntico contra-relógio que nem o Joaquim Agostinho o conseguiria acompanhar.
 
Também dessa vez vinha como sempre na pirisca, reduziu a velocidade, meteu três mudanças de rajada e quando se preparava para fazer a curva à sua esquerda em frente ao Central, alguém assobiou tão alto que o atrapalhou na manobra, ao tentar reduzir ainda mais a velocidade a cremalheira deu sinal de si, a corrente abanou três vezes como varas verdes, não conseguiu desfazer a curva e entrou de esgalha-pau pelo portão vermelho do Alberto das Camisas adentro, atropelando duas galinhas, deitando abaixo três fardos de palha, desfazendo em gemada meia dúzia de ovos acabados de pôr, abatendo a ilharga direita da galera, resvalando no milho espalhado pelo chão e aterrando em cima de um colchão que estava a ser cheio de camisas de palha de espigas de milho que o Chico das Mobílias haveria de pôr à venda na loja. 
 
Luís Panhol saiu do palheiro a abanar, a cabeça cheia de palha, a bicicleta às costas e aborrecido com o acidente que lhe ficaria a manchar para todo o sempre o seu currículo imaculado de campeão. Claro que os mirones no terraço do Central que assistiram a tão hilariante espectáculo não conseguiram suster o riso e desfizeram-se em gargalhadas. Mas o Luís Panhol não achou graça nenhuma à brincadeira. Arregaçou as mangas da camisa suja de amarelo da gemada, sacudiu a palha da cabeça e brandiu os punhos como o Cassius Clay em pleno ringue. “Vocês estão lixados comigo, olhem que eu sou um homem praticamente casado” repetia o ciclista boxeur para quem tivesse coragem de o enfrentar. A vida por vezes era difícil e ninguém queria torná-la ainda mais complicada. A ameaça de um homem praticamente casado reduziu a nada a coragem dos mirones. E, por via disso, o desafio ficou sem resposta à altura.
 
Entretanto, dentro do Central já o ambiente se animava. “Arranja aí mais uma cervejeca e uns tremocecos ou um bocadeco de pão duro ou qualquer coisa para fazer lastro para logo à noite irmos ao Vitorino comer uma mariscada”. Era o Zé Maria Macol, assim baptizado para o resto da vida por usar uma t’shirt com a marca do famoso sabão. Depois de devorar três rodelas de chispe no Cinemascopos, duas malgas de couves com feijões e uma manta de toucinho do alto acompanhada com um garrafão de tinto Canal 13, o Macol estava já nas condições mínimas para conduzir a sua 4L em piloto automático até à terra dos fenómenos. Durante o caminho, o Zé Maria contou apenas 17 histórias, uma dúzia de anedotas e fumou dois maços de SG Filtro, enquanto conduzia a 4L sempre voltado para o banco de trás onde se acotovelava meia dúzia de rapazecos para quem o Macol era um ídolo. Ninguém como ele conseguia sequer conduzir um simples carro de mão de olhos abertos quanto mais um Renault dos melhores de olhos fechados. Ao chegar ao Vitorino, marisqueira das boas só acessível a carteiras recheadas, o Zé Maria sentou-se ao balcão e pediu uma rodada de oito imperiais, um molhinho exótico e um paposseco duro para molhar no dito cujo. Por vezes a vida era difícil e o Macol sabia bem a que preço estava o marisco. Veio o paposseco e o pires com o molho de grelhar os camarões tigre de Moçambique. Foi de comer e chorar por mais. E aquele molho exótico ficou na história dos grandes petiscos. A vida era mesmo difícil.
 
Mas no Central a noite ainda ia a meio. Na mesa do canto, o Trio Charrueco Velho ensaiava o tom dos últimos temas do yé yé. Manuel Bico, Joaquim Pau Preto e Zé Luís Pinheiro ensaiavam o Hully Gully do Montanhês, um estrondoso êxito do Conjunto Académico de João Paulo, com o qual o trio haveria de arrastar multidões no Festival do Chícharo em Alvaiázere e na Feira dos Porcos da Atalaia. Aliás, o estonteante sucesso deste trio pôs em polvorosa o panorama das canções e chegou mesmo a ameaçar o futuro do Trio Odemira. 
 
Manuel Bico era o mentor do trio e o autor das letras do grupo. Poemas épicos. Porque a vida sempre foi difícil, depois de beber três imperiais era mais que certo que se ouvia da sua boca “esta vida é uma porra imensa e absoluta, viver a gente neste fadário, como se habitássemos um país lendário, onde todos fossem filhos da puta, mais valera a vida numa gruta, isolados deste mundo falsário, onde o mal parece necessário, e termos que viver como fera bruta, mas o que dói o que tortura não é ainda sofrer a fome dura, sem um ai de dor ou um gemido, o que custa mais que tudo ainda é esta porra imensa que não finda, de viver constantemente a ser fodido”.

Actualizado em ( Quinta, 05 Fevereiro 2015 12:06 )  

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