o riachense

SŠbado,
23 de Setembro de 2017
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Esta vida é uma porra imensa e absoluta

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por Carlos Tomé

Estava eu a prender os reposteiros com fitas de pl√°stico de v√°rias cores nas janelas do Central, por mor do mosquedo, quando avistei o Lu√≠s Panhol na sua bicicleta de corrida com guiador curvo em grande velocidade a descer do Largo todo tombado sobre a m√°quina e a pedalar como gente gra√ļda. Bon√© na cabe√ßa com a pala virada para tr√°s, uma camisa justa ao tronco mas aberta na peita√ßa e umas cal√ßas √† boca-de-sino mas enroladas na canela e metidas por dentro das meias brancas, o que fazia sempre que se esquecia das molas da roupa em casa. Lu√≠s Panhol era o maior ciclista da regi√£o. Era um ciclista a s√©rio. N√£o usava fitinhas rid√≠culas nos punhos do guiador nem um maricon√ßo moinho de vento feito em cana e papel de revista no guiador ao lado da campainha. Sa√≠a do Alves das L√£s na vila √†s cinco da tarde e quando o rel√≥gio da igreja nova acabava de dar a quinta badalada, era mais que certo que o camisola amarela cortava a meta na rua do Sarga√ßo. Fazia o circuito todo num aut√™ntico contra-rel√≥gio que nem o Joaquim Agostinho o conseguiria acompanhar.
 
Tamb√©m dessa vez vinha como sempre na pirisca, reduziu a velocidade, meteu tr√™s mudan√ßas de rajada e quando se preparava para fazer a curva √† sua esquerda em frente ao Central, algu√©m assobiou t√£o alto que o atrapalhou na manobra, ao tentar reduzir ainda mais a velocidade a cremalheira deu sinal de si, a corrente abanou tr√™s vezes como varas verdes, n√£o conseguiu desfazer a curva e entrou de esgalha-pau pelo port√£o vermelho do Alberto das Camisas adentro, atropelando duas galinhas, deitando abaixo tr√™s fardos de palha, desfazendo em gemada meia d√ļzia de ovos acabados de p√īr, abatendo a ilharga direita da galera, resvalando no milho espalhado pelo ch√£o e aterrando em cima de um colch√£o que estava a ser cheio de camisas de palha de espigas de milho que o Chico das Mob√≠lias haveria de p√īr √† venda na loja.¬†
 
Lu√≠s Panhol saiu do palheiro a abanar, a cabe√ßa cheia de palha, a bicicleta √†s costas e aborrecido com o acidente que lhe ficaria a manchar para todo o sempre o seu curr√≠culo imaculado de campe√£o. Claro que os mirones no terra√ßo do Central que assistiram a t√£o hilariante espect√°culo n√£o conseguiram suster o riso e desfizeram-se em gargalhadas. Mas o Lu√≠s Panhol n√£o achou gra√ßa nenhuma √† brincadeira. Arrega√ßou as mangas da camisa suja de amarelo da gemada, sacudiu a palha da cabe√ßa e brandiu os punhos como o Cassius Clay em pleno ringue. ‚ÄúVoc√™s est√£o lixados comigo, olhem que eu sou um homem praticamente casado‚ÄĚ repetia o ciclista boxeur para quem tivesse coragem de o enfrentar. A vida por vezes era dif√≠cil e ningu√©m queria torn√°-la ainda mais complicada. A amea√ßa de um homem praticamente casado reduziu a nada a coragem dos mirones. E, por via disso, o desafio ficou sem resposta √† altura.
 
Entretanto, dentro do Central j√° o ambiente se animava. ‚ÄúArranja a√≠ mais uma cervejeca e uns tremocecos ou um bocadeco de p√£o duro ou qualquer coisa para fazer lastro para logo √† noite irmos ao Vitorino comer uma mariscada‚ÄĚ. Era o Z√© Maria Macol, assim baptizado para o resto da vida por usar uma t‚Äôshirt com a marca do famoso sab√£o. Depois de devorar tr√™s rodelas de chispe no Cinemascopos, duas malgas de couves com feij√Ķes e uma manta de toucinho do alto acompanhada com um garraf√£o de tinto Canal 13, o Macol estava j√° nas condi√ß√Ķes m√≠nimas para conduzir a sua 4L em piloto autom√°tico at√© √† terra dos fen√≥menos. Durante o caminho, o Z√© Maria contou apenas 17 hist√≥rias, uma d√ļzia de anedotas e fumou dois ma√ßos de SG Filtro, enquanto conduzia a 4L sempre voltado para o banco de tr√°s onde se acotovelava meia d√ļzia de rapazecos para quem o Macol era um √≠dolo. Ningu√©m como ele conseguia sequer conduzir um simples carro de m√£o de olhos abertos quanto mais um Renault dos melhores de olhos fechados. Ao chegar ao Vitorino, marisqueira das boas s√≥ acess√≠vel a carteiras recheadas, o Z√© Maria sentou-se ao balc√£o e pediu uma rodada de oito imperiais, um molhinho ex√≥tico e um paposseco duro para molhar no dito cujo. Por vezes a vida era dif√≠cil e o Macol sabia bem a que pre√ßo estava o marisco. Veio o paposseco e o pires com o molho de grelhar os camar√Ķes tigre de Mo√ßambique. Foi de comer e chorar por mais. E aquele molho ex√≥tico ficou na hist√≥ria dos grandes petiscos. A vida era mesmo dif√≠cil.
 
Mas no Central a noite ainda ia a meio. Na mesa do canto, o Trio Charrueco Velho ensaiava o tom dos √ļltimos temas do y√© y√©. Manuel Bico, Joaquim Pau Preto e Z√© Lu√≠s Pinheiro ensaiavam o Hully Gully do Montanh√™s, um estrondoso √™xito do Conjunto Acad√©mico de Jo√£o Paulo, com o qual o trio haveria de arrastar multid√Ķes no Festival do Ch√≠charo em Alvai√°zere e na Feira dos Porcos da Atalaia. Ali√°s, o estonteante sucesso deste trio p√īs em polvorosa o panorama das can√ß√Ķes e chegou mesmo a amea√ßar o futuro do Trio Odemira.¬†
 
Manuel Bico era o mentor do trio e o autor das letras do grupo. Poemas √©picos. Porque a vida sempre foi dif√≠cil, depois de beber tr√™s imperiais era mais que certo que se ouvia da sua boca ‚Äúesta vida √© uma porra imensa e absoluta, viver a gente neste fad√°rio, como se habit√°ssemos um pa√≠s lend√°rio, onde todos fossem filhos da puta, mais valera a vida numa gruta, isolados deste mundo fals√°rio, onde o mal parece necess√°rio, e termos que viver como fera bruta, mas o que d√≥i o que tortura n√£o √© ainda sofrer a fome dura, sem um ai de dor ou um gemido, o que custa mais que tudo ainda √© esta porra imensa que n√£o finda, de viver constantemente a ser fodido‚ÄĚ.

Actualizado em ( Quinta, 05 Fevereiro 2015 12:06 )  

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