o riachense

TerÁa,
25 de Abril de 2017
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Um sonho adiado

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por Carlos Tomé

Tinha acabado de vir da Santa da Ladeira. N√£o era crente em milagres, era antes um cr√≠tico, algu√©m que n√£o acreditava nos poderes sobrenaturais da Maria R√≥i Merda, como era conhecida na terra, mas era tamb√©m muito cr√≠tico quanto ao milagre da Cova dos Le√Ķes, como chamava Tom√°s da Fonseca √† Cova de Iria. Para ele os milagres tinham todos o mesmo valor: nenhum. S√≥ acreditava nos sonhos, porque esses comandam a vida. No fundo, quanto √†s coisas da cren√ßa era um descrente, um agn√≥stico, algu√©m que n√£o ia em conversas e queria estar bem informado sobre as coisas importantes da vida. Mas gostava de ir √† Santa da Ladeira para ver como ia o neg√≥cio dos milagres. L√° tinha visto o cego do Mercado da Vila na sua actua√ß√£o junto dos peregrinos ‚Äútenham a bondade de auxiliar o ceguinho‚ÄĚ e isso f√™-lo pensar que o que se aproveita dos milagres √© t√£o cego como os que acreditam neles. E como escreveria Saramago muitos anos depois no Ensaio sobre a Cegueira ‚Äúse podes olhar, v√™. Se podes ver, repara‚ÄĚ. Era o que fazia El Rodrigo de cada vez que ia √† Ladeira do Pinheiro.¬†
 
Nessa noite, quando entrou no Central vinha arreliado com os falsos milagres pelo que nada melhor que uma tacinha para acalmar os nervos e sentar-se na plateia para apreciar a transmiss√£o do exterior que, como era quinta-feira, era f√°cil de adivinhar que se tratava de uma tourada no Campo Pequeno. El Rodrigo n√£o perdia uma. Gostava do Jos√© Mestre Batista, um verdadeiro artista no cavalo Forcado, do Jos√© N√ļncio, do Gustavo Zenkl e do Lu√≠s Miguel da Veiga, o menino bonito da cavalaria, mas detestava o toureio a cavalo espanhol ao qual n√£o achava piada nenhuma, gostava do Manuel dos Santos claro est√°, do Jos√© J√ļlio amigo do Alves Redol e do El Cordob√©s, seu √≠dolo de sempre, como toureiros a p√©. Admirava a coragem dos homens das pegas como Nuno Salva√ß√£o Barreto que se tornou mundialmente famoso ao participar no Quo Vadis, Ant√≥nio Portelinha o riachense que pegou com o lisboeta no Campo Pequeno, Ant√≥nio Serra Torres cabo dos forcados de Riachos e Rui Sotto Barreiros dos amadores de Santar√©m, que √†s segundas-feiras passava pelo Central quando sa√≠a do escrit√≥rio dos Luzes sempre escalavrado com um bra√ßo ao peito, uma orelha derrubada ou um olho negro.¬†
 
No meio de uma discuss√£o entre aficcionados sobre qual o melhor toureiro na capa e espada, se M√°rio Coelho se Jos√© J√ļlio, ambos de Vila Franca, meio encolhido, de bon√© na cabe√ßa e cigarro Provis√≥rios ao canto da boca, Jo√£o Serra, o famoso forcado das mil pegas conhecido em todo o pa√≠s, e que n√£o perdia uma ocasi√£o para recordar a emo√ß√£o de ter uma montanha negra em frente a si a olh√°-lo fixamente, rematou com a calma do costume ‚Äú s√£o os dois muito bons mas os dois t√™m uma capa e uma espada e eu s√≥ tinha os bra√ßos‚ÄĚ.¬†
 
Entusiasmado com o espect√°culo taurino, quando saiu do Central, El Rodrigo via renascer de novo em si o sonho de ainda um dia vir a ser toureiro. Um sonho que sempre comandou a sua vida e sempre que o sonhava o mundo pulava e avan√ßava. Foi para casa √† pressa mas ainda teve tempo para, de telefonia colada √† orelha direita, ouvir a cr√≠tica taurom√°quica do Maur√≠cio do Vale e do Eduardo Leonardo no Sol e Toiros, programa da Emissora Nacional. Farto de ser um mero oper√°rio na F√°brica das L√£s do Ant√≥nio Alves e trazer para casa no fim do m√™s pouco mais de dois contos de r√©is, imaginava-se a trocar a sua sarrasqueta por um carro a s√©rio e a entrar no Campo Pequeno com dez mil aficcionados em √™xtase a clamarem pelo seu nome ‚ÄúEl Rodrigo, El Rodrigo‚ÄĚ enquanto entravam guizos, chocas, capotes e mantilhas pretas, soavam brados e ol√©s dos pe√Ķes de brega, entravam marialvas, coristas, galif√Ķes de crista, cavaleiros √† garupa do seu hero√≠smo, e se ouvia aquela m√ļsica maluca do passodoblismo, como cantava o Fernando Tordo. E o inteligente, numa prova de que o seu nome tinha toda a raz√£o de ser, mandava tocar a banda. No fim, era a apoteose: El Rodrigo sai em ombros com cinco voltas √† arena. Era o sonho tornado realidade. N√£o era um milagre, porque em milagres n√£o acrediatava ele. Ele via o futuro, com a clareza e a convic√ß√£o dos verdadeiros crentes.
 
Quando chegou a casa, El Rodrigo vestiu o traje de luces que tinha escondido numa arca, p√īs uma camisa branca de folhos, colocou um ar altivo, encolheu a barriga, esticou a peita√ßa at√© fazer estalar o tecido da jaqueta e exibiu para quem o quisesse ver duas bandarilhas, uma em cada m√£o. O bandarilheiro empurrou o fardo de palha que tinha preso por um bara√ßo ao telhado do palheiro, esperou que o fardo investisse contra si, rodou o corpo permitindo que o animal passasse mesmo rente ao seu corpo, levantou as duas bandarilhas presas como lapas √†s man√°pulas e cravou-as na perfei√ß√£o mesmo no lombo do fardo. Nem o Manuel Benitez era capaz de faena t√£o esbelta e ousada.
 
Ali estava o sonho feito realidade, um verdadeitro milagre, embora n√£o acreditasse em milagres. Foi o del√≠rio. S√≥ houve um pequeno sen√£o, √© que, vidrado pelo sucesso da manobra, o bandarilheiro esqueceu-se que o fardo ia mas tamb√©m vinha, de tal modo que na vinda o apanhou em cheio por tr√°s quando estava j√° a agradecer os aplausos imagin√°rios dos aficcionados que esgotavam a pra√ßa. Foram tr√™s dias de estada no hospital da vila gra√ßas ao ataque taurino por tr√°s, √† trai√ß√£o. Por causa de uma simples distrac√ß√£o do bandarilheiro. Foi ‚Äúa morte do artista‚ÄĚ como dizia El Rodrigo. E l√° teve o sonho que voltar a ser adiado.


Actualizado em ( Ter√ßa, 27 Janeiro 2015 23:17 )  

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