o riachense

Sexta,
24 de Novembro de 2017
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Um sonho adiado

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por Carlos Tomé

Tinha acabado de vir da Santa da Ladeira. Não era crente em milagres, era antes um crítico, alguém que não acreditava nos poderes sobrenaturais da Maria Rói Merda, como era conhecida na terra, mas era também muito crítico quanto ao milagre da Cova dos Leões, como chamava Tomás da Fonseca à Cova de Iria. Para ele os milagres tinham todos o mesmo valor: nenhum. Só acreditava nos sonhos, porque esses comandam a vida. No fundo, quanto às coisas da crença era um descrente, um agnóstico, alguém que não ia em conversas e queria estar bem informado sobre as coisas importantes da vida. Mas gostava de ir à Santa da Ladeira para ver como ia o negócio dos milagres. Lá tinha visto o cego do Mercado da Vila na sua actuação junto dos peregrinos “tenham a bondade de auxiliar o ceguinho” e isso fê-lo pensar que o que se aproveita dos milagres é tão cego como os que acreditam neles. E como escreveria Saramago muitos anos depois no Ensaio sobre a Cegueira “se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Era o que fazia El Rodrigo de cada vez que ia à Ladeira do Pinheiro. 
 
Nessa noite, quando entrou no Central vinha arreliado com os falsos milagres pelo que nada melhor que uma tacinha para acalmar os nervos e sentar-se na plateia para apreciar a transmissão do exterior que, como era quinta-feira, era fácil de adivinhar que se tratava de uma tourada no Campo Pequeno. El Rodrigo não perdia uma. Gostava do José Mestre Batista, um verdadeiro artista no cavalo Forcado, do José Núncio, do Gustavo Zenkl e do Luís Miguel da Veiga, o menino bonito da cavalaria, mas detestava o toureio a cavalo espanhol ao qual não achava piada nenhuma, gostava do Manuel dos Santos claro está, do José Júlio amigo do Alves Redol e do El Cordobés, seu ídolo de sempre, como toureiros a pé. Admirava a coragem dos homens das pegas como Nuno Salvação Barreto que se tornou mundialmente famoso ao participar no Quo Vadis, António Portelinha o riachense que pegou com o lisboeta no Campo Pequeno, António Serra Torres cabo dos forcados de Riachos e Rui Sotto Barreiros dos amadores de Santarém, que às segundas-feiras passava pelo Central quando saía do escritório dos Luzes sempre escalavrado com um braço ao peito, uma orelha derrubada ou um olho negro. 
 
No meio de uma discussão entre aficcionados sobre qual o melhor toureiro na capa e espada, se Mário Coelho se José Júlio, ambos de Vila Franca, meio encolhido, de boné na cabeça e cigarro Provisórios ao canto da boca, João Serra, o famoso forcado das mil pegas conhecido em todo o país, e que não perdia uma ocasião para recordar a emoção de ter uma montanha negra em frente a si a olhá-lo fixamente, rematou com a calma do costume “ são os dois muito bons mas os dois têm uma capa e uma espada e eu só tinha os braços”. 
 
Entusiasmado com o espectáculo taurino, quando saiu do Central, El Rodrigo via renascer de novo em si o sonho de ainda um dia vir a ser toureiro. Um sonho que sempre comandou a sua vida e sempre que o sonhava o mundo pulava e avançava. Foi para casa à pressa mas ainda teve tempo para, de telefonia colada à orelha direita, ouvir a crítica tauromáquica do Maurício do Vale e do Eduardo Leonardo no Sol e Toiros, programa da Emissora Nacional. Farto de ser um mero operário na Fábrica das Lãs do António Alves e trazer para casa no fim do mês pouco mais de dois contos de réis, imaginava-se a trocar a sua sarrasqueta por um carro a sério e a entrar no Campo Pequeno com dez mil aficcionados em êxtase a clamarem pelo seu nome “El Rodrigo, El Rodrigo” enquanto entravam guizos, chocas, capotes e mantilhas pretas, soavam brados e olés dos peões de brega, entravam marialvas, coristas, galifões de crista, cavaleiros à garupa do seu heroísmo, e se ouvia aquela música maluca do passodoblismo, como cantava o Fernando Tordo. E o inteligente, numa prova de que o seu nome tinha toda a razão de ser, mandava tocar a banda. No fim, era a apoteose: El Rodrigo sai em ombros com cinco voltas à arena. Era o sonho tornado realidade. Não era um milagre, porque em milagres não acrediatava ele. Ele via o futuro, com a clareza e a convicção dos verdadeiros crentes.
 
Quando chegou a casa, El Rodrigo vestiu o traje de luces que tinha escondido numa arca, pôs uma camisa branca de folhos, colocou um ar altivo, encolheu a barriga, esticou a peitaça até fazer estalar o tecido da jaqueta e exibiu para quem o quisesse ver duas bandarilhas, uma em cada mão. O bandarilheiro empurrou o fardo de palha que tinha preso por um baraço ao telhado do palheiro, esperou que o fardo investisse contra si, rodou o corpo permitindo que o animal passasse mesmo rente ao seu corpo, levantou as duas bandarilhas presas como lapas às manápulas e cravou-as na perfeição mesmo no lombo do fardo. Nem o Manuel Benitez era capaz de faena tão esbelta e ousada.
 
Ali estava o sonho feito realidade, um verdadeitro milagre, embora não acreditasse em milagres. Foi o delírio. Só houve um pequeno senão, é que, vidrado pelo sucesso da manobra, o bandarilheiro esqueceu-se que o fardo ia mas também vinha, de tal modo que na vinda o apanhou em cheio por trás quando estava já a agradecer os aplausos imaginários dos aficcionados que esgotavam a praça. Foram três dias de estada no hospital da vila graças ao ataque taurino por trás, à traição. Por causa de uma simples distracção do bandarilheiro. Foi “a morte do artista” como dizia El Rodrigo. E lá teve o sonho que voltar a ser adiado.


Actualizado em ( Terça, 27 Janeiro 2015 23:17 )  

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