o riachense

TerÁa,
25 de Abril de 2017
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O Senhor Jesus dos Lavradores

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Carlos Manuel Pereira
De entre os temas hist√≥ricos relacionados com Riachos, aquele que, inevitavelmente, aparece destacado √© o do Senhor Jesus dos lavradores, embora o tema do Castelo Velho possa ter mais significado para a hist√≥ria da regi√£o. O tema do Senhor Jesus foi quase sempre referido tendo como base a tradi√ß√£o oral e um conjunto de suposi√ß√Ķes que, provavelmente, n√£o passam disso mesmo. Vamos deixar de lado as suposi√ß√Ķes que, digo eu, confundem mais do que ajudam e vamos considerar a tradi√ß√£o oral.¬†
 
Diz a tradi√ß√£o que os lavradores dos Riachos acharam uma imagem de Cristo crucificado quando lavravam no Espragal, ou na quinta do Minhoto, ou para os lados do casal do Lavra. √Č um facto que a imagem existe e que foi associada, primeiramente, √† confraria dos lavradores de Torres Novas e, posteriormente, aos lavradores dos Riachos que mantiveram o privil√©gio de requerer a sua sa√≠da em prociss√£o, para al√©m de exigirem que fosse colocada na igreja de Santiago de onde eram fregueses. Por curiosidade e para confirmar a posse da imagem, num documento de 1502 em que s√£o arrolados os bens da confraria de Jesus ‚Äúque se so√≠a chamar dos lavradores‚ÄĚ, o escriv√£o da Miseric√≥rdia deixou em 1695, junto ao item que referia uma ‚Äúcasa de palheiro‚ÄĚ que a confraria tinha na vila de Torres Novas, a seguinte nota: ‚Äúno ano de 1695 pagava o foro de 100 r√©is Manuel Fernandes Freire desta vila e por tradi√ß√£o antiga se tem por certo esta casa estar em ela o Bom Jesus de Sant‚ÄôIago e agora serve de cozinha ao dito foreiro‚ÄĚ 1.
 
Acrescenta a tradi√ß√£o que eles, em troca do Senhor Jesus, deram o Menino Deus. Isto sugere que ‚Äúeles‚ÄĚ, os da Miseric√≥rdia, para compensar e melhor convencer os lavradores, ofereceram por troca uma outra imagem que, dadas as suas dimens√Ķes, seria mais facilmente transportada e acomodada em casa de qualquer dos confrades. Assim a Miseric√≥rdia acrescentou mais esta oferta ao privil√©gio referido atr√°s, com o objectivo de assegurarem o rendimento que a imagem do Senhor Jesus lhes proporcionaria e cuja import√Ęncia veio a ser comprovada pelas manifesta√ß√Ķes de cobi√ßa dos padres da igreja de Santiago que, durante s√©culos batalharam, sem sucesso, pela posse da capela, que √© como quem diz, pela posse da respectiva caixa das esmolas. A capela de Jesus √© referida a partir de 1560, de acordo com os registos paroquiais de Santiago, em √≥bitos de membros da fam√≠lia M√≥go, certamente por ter pertencido a esta fam√≠lia um dos primeiros provedores da Miseric√≥rdia.
 
Na sequ√™ncia dos restauros recentemente efectuados nas igrejas de S√£o Pedro, Salvador e Santiago de Torres Novas, e referindo-se √† imagem do Senhor Jesus, diz V√≠tor Serr√£o 2 que ‚ÄúEsta escultura tem caracter√≠sticas de fatura quatrocentista, ainda que desfavorecida pela cabeleira hodierna que lhe cobre a cabe√ßa e deixa invis√≠vel a modela√ß√£o dos cabelos... Talvez essa e outras excresc√™ncias, bem como os repintes, tenham levado alguns autores a julgar, erradamente, que a imagem era j√° setecentista‚Ķ‚ÄĚ. Pol√©micas √† parte, os citados restauros permitiram concluir que a imagem ter√° sido feita nos anos de 1400. Ora no decorrer desse s√©culo, mais precisamente em 1472, D. Afonso V d√° de sesmaria a Henrique de Sousa a terra da quinta do Minhoto que √© descrita do seguinte modo: ‚Äú... √© de longo assim como v√£o os vales do murtal e do ramalhal at√© ao termo da atalaia e que ser√° cerca de meia l√©gua de longo e de largo dois tiros de besta a lugares mais e a lugares menos... que de uma parte partem (ou confrontam) com terras que jazem em matos... pelo vale do minhoto at√© ao termo da atalaia...‚ÄĚ 3. Se considerarmos que meia l√©gua valeria naquele tempo cerca de tr√™s quil√≥metros e os dois tiros de besta √† volta de 500 metros, podemos concluir que a dita terra se estendia desde o (campo do) Murtal at√© √† estrada da Mal√£, onde existe hoje o viaduto e a rotunda da variante e onde se diz ficar a Courela do Senhor Jesus, e da√≠ dizer-se que a imagem foi encontrada no campo do Espargal, ou na quinta do Minhoto, ou para os lados do casal do Lavra.¬†
 
Embora seja imposs√≠vel comprovar o lugar exacto onde a imagem foi encontrada, vamos aceitar, em princ√≠pio, a tradi√ß√£o oral. Vamos admitir, por hip√≥tese, que algu√©m a enterrou nessas terras que estavam em matagal h√° d√©cadas e que o tal Henrique de Sousa ter√° mandado arrotear logo ap√≥s a referida doa√ß√£o, e que, na sequ√™ncia dessa tarefa, os lavradores tenham feito o achado... E √© neste ponto que se levantam as quest√Ķes de mais dif√≠cil resposta...
 
Que imagem era esta e que uso lhe estava destinado? 
Quem é que a enterrou e, considerando a época, porque razão o fez e porquê naquele sítio?
Porque é que a imagem não foi reclamada por eventuais donos? 
Porque é que os lavradores não entregaram simplesmente a imagem à guarda da igreja da freguesia?
Porquê o sentimento de posse que ainda persiste nos dias de hoje?

1-  Gonçalves, Artur. 1935. Torres Novas Subsídios para a sua História, p.323.
2-  Serrão, Vítor. 2012. As igrejas do Salvador, São Tiago e São Pedro de Torres Novas Arquitetura e Equipamentos Artísticos, p.96.
3- Torre do Tombo, Chancelaria de D. Afonso V, livro 29, fls. 251v-252v.

 

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