o riachense

Sexta,
24 de Novembro de 2017
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O Senhor Jesus dos Lavradores

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Carlos Manuel Pereira
De entre os temas históricos relacionados com Riachos, aquele que, inevitavelmente, aparece destacado é o do Senhor Jesus dos lavradores, embora o tema do Castelo Velho possa ter mais significado para a história da região. O tema do Senhor Jesus foi quase sempre referido tendo como base a tradição oral e um conjunto de suposições que, provavelmente, não passam disso mesmo. Vamos deixar de lado as suposições que, digo eu, confundem mais do que ajudam e vamos considerar a tradição oral. 
 
Diz a tradição que os lavradores dos Riachos acharam uma imagem de Cristo crucificado quando lavravam no Espragal, ou na quinta do Minhoto, ou para os lados do casal do Lavra. É um facto que a imagem existe e que foi associada, primeiramente, à confraria dos lavradores de Torres Novas e, posteriormente, aos lavradores dos Riachos que mantiveram o privilégio de requerer a sua saída em procissão, para além de exigirem que fosse colocada na igreja de Santiago de onde eram fregueses. Por curiosidade e para confirmar a posse da imagem, num documento de 1502 em que são arrolados os bens da confraria de Jesus “que se soía chamar dos lavradores”, o escrivão da Misericórdia deixou em 1695, junto ao item que referia uma “casa de palheiro” que a confraria tinha na vila de Torres Novas, a seguinte nota: “no ano de 1695 pagava o foro de 100 réis Manuel Fernandes Freire desta vila e por tradição antiga se tem por certo esta casa estar em ela o Bom Jesus de Sant’Iago e agora serve de cozinha ao dito foreiro” 1.
 
Acrescenta a tradição que eles, em troca do Senhor Jesus, deram o Menino Deus. Isto sugere que “eles”, os da Misericórdia, para compensar e melhor convencer os lavradores, ofereceram por troca uma outra imagem que, dadas as suas dimensões, seria mais facilmente transportada e acomodada em casa de qualquer dos confrades. Assim a Misericórdia acrescentou mais esta oferta ao privilégio referido atrás, com o objectivo de assegurarem o rendimento que a imagem do Senhor Jesus lhes proporcionaria e cuja importância veio a ser comprovada pelas manifestações de cobiça dos padres da igreja de Santiago que, durante séculos batalharam, sem sucesso, pela posse da capela, que é como quem diz, pela posse da respectiva caixa das esmolas. A capela de Jesus é referida a partir de 1560, de acordo com os registos paroquiais de Santiago, em óbitos de membros da família Mógo, certamente por ter pertencido a esta família um dos primeiros provedores da Misericórdia.
 
Na sequência dos restauros recentemente efectuados nas igrejas de São Pedro, Salvador e Santiago de Torres Novas, e referindo-se à imagem do Senhor Jesus, diz Vítor Serrão 2 que “Esta escultura tem características de fatura quatrocentista, ainda que desfavorecida pela cabeleira hodierna que lhe cobre a cabeça e deixa invisível a modelação dos cabelos... Talvez essa e outras excrescências, bem como os repintes, tenham levado alguns autores a julgar, erradamente, que a imagem era já setecentista…”. Polémicas à parte, os citados restauros permitiram concluir que a imagem terá sido feita nos anos de 1400. Ora no decorrer desse século, mais precisamente em 1472, D. Afonso V dá de sesmaria a Henrique de Sousa a terra da quinta do Minhoto que é descrita do seguinte modo: “... é de longo assim como vão os vales do murtal e do ramalhal até ao termo da atalaia e que será cerca de meia légua de longo e de largo dois tiros de besta a lugares mais e a lugares menos... que de uma parte partem (ou confrontam) com terras que jazem em matos... pelo vale do minhoto até ao termo da atalaia...” 3. Se considerarmos que meia légua valeria naquele tempo cerca de três quilómetros e os dois tiros de besta à volta de 500 metros, podemos concluir que a dita terra se estendia desde o (campo do) Murtal até à estrada da Malã, onde existe hoje o viaduto e a rotunda da variante e onde se diz ficar a Courela do Senhor Jesus, e daí dizer-se que a imagem foi encontrada no campo do Espargal, ou na quinta do Minhoto, ou para os lados do casal do Lavra. 
 
Embora seja impossível comprovar o lugar exacto onde a imagem foi encontrada, vamos aceitar, em princípio, a tradição oral. Vamos admitir, por hipótese, que alguém a enterrou nessas terras que estavam em matagal há décadas e que o tal Henrique de Sousa terá mandado arrotear logo após a referida doação, e que, na sequência dessa tarefa, os lavradores tenham feito o achado... E é neste ponto que se levantam as questões de mais difícil resposta...
 
Que imagem era esta e que uso lhe estava destinado? 
Quem é que a enterrou e, considerando a época, porque razão o fez e porquê naquele sítio?
Porque é que a imagem não foi reclamada por eventuais donos? 
Porque é que os lavradores não entregaram simplesmente a imagem à guarda da igreja da freguesia?
Porquê o sentimento de posse que ainda persiste nos dias de hoje?

1-  Gonçalves, Artur. 1935. Torres Novas Subsídios para a sua História, p.323.
2-  Serrão, Vítor. 2012. As igrejas do Salvador, São Tiago e São Pedro de Torres Novas Arquitetura e Equipamentos Artísticos, p.96.
3- Torre do Tombo, Chancelaria de D. Afonso V, livro 29, fls. 251v-252v.

 

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