o riachense

Sexta,
24 de Novembro de 2017
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Os Riachos na Décima

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Carlos Manuel Pereira

Certamente todos saberão o que se passou em Portugal no primeiro dia do mês de Dezembro de 1640. Depois do golpe de estado que pôs fim à dinastia dos Filipes, sucederam-se os inevitáveis confrontos militares com os espanhóis. Nessa altura, para fazer face às despesas da chamada guerra da Restauração, foi criado o imposto extraordinário da Décima, taxa anual de 10%, que foi relançado em 1762 por D. José I e a que ficavam sujeitos todos os indivíduos e todas as espécies de bens e imóveis (casas, terras, gados, moinhos, lagares, etc.) e todos os rendimentos, quer fossem de ofícios, salários, pensões, rendas, foros, juros ou lucros da indústria e do comércio. De tal forma que apenas ficavam isentos os órfãos que não tinham fazenda e “outras pessoas tão pobres e miseráveis que se não sustentem de outra cousa que de esmolas1.

A informação que ficou registada 2 permite-nos conhecer a área que correspondia à vintena dos Riachos em 1770. O juízo de vintena era a primeira instância local da justiça, derivando o seu nome do facto de existir um juiz por cada grupo de 20 fogos (vizinhos), no entanto, verifica-se no caso dos Riachos, bem como na generalidade das outras vintenas, que a jurisdição se referia a uma determinada área geográfica sem ter em conta o número de fogos. O juiz e os eventuais auxiliares eram eleitos localmente e recebiam da câmara uma delegação de poderes para decidirem nas disputas entre os moradores. A área da vintena dos Riachos começaria na estrada da Malã, aos portões do Raposo, ou seja a entrada para a quinta de Carvalhais, e daí seguia para sul, entre o dito caminho da Malã e o rio, até aos limites actualmente existentes, excluindo o casal da Volta e o casal do Lavra, passando pelas terras da quinta do Minhoto e pelo casal da Comenda, entrando no campo pelo Murtal, seguindo pela estrada das Cordas até à Comendadeira junto ao rio. 
 
A quinta de Carvalhais “que consta de casas, páteo, terra de pão, olivais e matos, anexo à mesma possue os casais dos redondos e outras terras…” era incluída, naquela época, no capítulo designado por “Arrabaldes da Vila”, onde era, igualmente, incluída a quinta de Valada. As descrições das terras vizinhas à quinta de Carvalhais, sugerem que esta se estendia pelas charnecas da Costa Brava (ou de Carvalhais) e dos Casais Novos, limitada a norte pela Ladeira do Pinheiro, a nascente pelos Casais Castelos, Casal Marcos Ferreira e Casal das Flores, e a sul pela Malã, um caminho que me faz sentir saudades e que jaz debaixo de uma coisa que é conhecida pela variante da  EN243, no troço entre a rotunda dos bois e a da Agromais.
 
O resto da área da freguesia estava incluída na vintena do Espargal, que ia dos casais Castelos até aos Casais Formigos e às Vendas e a sul estendia-se desde o casal das Flores, ao longo da Malã, até ao casal da Volta e acrescentando o casal do Lavra.
Entretanto, a capela dos Riachos (1656) contaria mais de cem anos e a população na área da actual freguesia já tinha triplicado, atingindo o total um pouco superior a quinhentas pessoas. A freguesia, tipicamente rural, apresentava, de acordo com os registos da Décima de 1770, indivíduos com ofícios específicos:
 
- Camila Maria, uma viúva que tinha em sua casa uma venda de vinho e azeite.
- um ferreiro, convenientemente chamado Manuel Ferreira, e que tinha vindo da Gouxaria.
- quatro sapateiros de seu nome António Lopes, António Mendes, João Duarte e um Joaquim de que ninguém conhecia o apelido e que vivia numas casas arrendadas à tal viúva que era vendeira.
- um carpinteiro chamado Domingos Amado de quem não achei descendentes, mas que era irmão de um José Amado que deixou muitos.
- um barbeiro chamado José Godinho e que em 1777, no registo do seu casamento, se irá declarar como Oficial de Sangrador. Para quem não souber, acontecia naqueles tempos que um barbeiro era também uma espécie de médico que exercia toda a espécie de pequenas cirurgias, desde tirar um dente, tratar de um calo ou fazer sangrias em doentes com doenças infecciosas com o propósito de lhes renovar o sangue.
- doutros ofícios também relacionados com a vida do campo, são relatados um feitor, um maioral, um abegão, dois pastores de ovelhas, nove que eram tributados pelo trabalho de enxada, e vinte singeleiros que, na linguagem do escrivão, eram tributados pelo “trabalho com dous bois”.
 
A figura central da nossa terra era então o doutor Francisco António de Sousa Cid que era dono da quinta do Minhoto, do Lagar Novo, do casal da Raposa, da quinta e moinhos do Porto da Várzea e da quase totalidade das casas ou casais em que moravam os nossos avós e que lhe pagavam o respectivo foro.
1 - Os textos em itálico são transcrições dos documentos da época.
2 - Conjunto Documental da Décima, Torres Novas e Termo, 1770 e 1771 - arquivo histórico do Tribunal de Contas, Lisboa.
 

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