o riachense

TerÁa,
25 de Abril de 2017
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Casa Vitória

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Vitória Fonseca está há 41 anos a tomar conta da taberna que agora é um café
 
J√° fui uma taberna (4)
 
√Č muito comum ouvir dizer que Riachos √© uma terra de caf√©s e cabeleireiros. Se assim √©, ent√£o podemos dizer que noutros tempos foi uma terra de barbeiros e tabernas. √Äs vezes, anexados √†s tabernas estavam as lojas, outras vezes estavam barbearias. O que √© h√° mais de 40 anos a Casa Vit√≥ria, na Esta√ß√£o, foi em tempos a taberna do Santo Antoninho, que fazia ‚Äúo melhor comer‚ÄĚ de Riachos, e a taberna do Ab√≠lio, que ali abriu o primeiro cabeleireiro de mulheres da aldeia.
 
A intensa actividade que havia permanentemente na zona da ent√£o chamada Esta√ß√£o de Torres Novas garantia sempre muita clientela √†s duas tabernas que ali havia. Havia sempre gente de passagem para a esta√ß√£o, os pr√≥prios trabalhadores da via e os trabalhadores das ind√ļstrias e armaz√©ns das redondezas (armaz√©m da CUF, os armaz√©ns do trigo e de fertilizantes, a f√°brica do √°lcool, a Torrejana, a Unital, a mercearia do Manel da Esta√ß√£o, os tractores, os cami√Ķes, os carros de bois e, claro, a esta√ß√£o dos comboios que trazia diariamente gente de t√£o longe quanto Minde). Falando com testemunhas da vida na pacata aldeia rural de meados do s√©culo XX, os adjectivos sobre o movimento na Esta√ß√£o variam sobre um mesmo significado: ‚Äúdoido‚ÄĚ, ‚Äúdiab√≥lico‚ÄĚ, ‚Äúmaluco‚ÄĚ.
 
Era assim especialmente ao meio-dia quando as tabernas (apesar de abrirem cedo e fecharem tarde) se enchiam de gente. O vinho consumido era muito, especialmente pelos trabalhadores como os ‚Äúputos das sacas‚ÄĚ, que carregavam √†s costas sacas que pesavam at√© 100 quilos da esta√ß√£o para o armaz√©m da CUF (onde hoje est√° a oficina do Coelho).¬†
 
O m√°ximo que a mem√≥ria chega √© √† taberna do Santo Antoninho, que l√° esteve at√© 1955. O Santo Antoninho era Ant√≥nio Antunes, um ex√≠mio cozinheiro da Escola Pr√°tica de Cavalaria (onde hoje est√° a Escola Pr√°tica de Pol√≠cia) em Torres Novas, que abriu em Riachos a taberna que tinha ‚Äúo melhor comer‚ÄĚ ali √† volta. Cozinheiro a vida toda, quase nunca era visto na taberna, pois o seu lugar era ao fog√£o. Era Justino, o filho, que estava ao balc√£o, personagem eternizada como o ‚ÄúAbren√ļncio‚ÄĚ, devido √† express√£o que ouviu numa cerim√≥nia religiosa e que passou a vida a repetir para g√°udio dos clientes. Nos anos 50, a fam√≠lia Antunes mudou-se para o centro do Entroncamento para explorar a casa Vila Franca. O Abren√ļncio abriu mais tarde duas tascas, uma junto √† Unital e outra logo junto √† ponte do Paul, perto do local onde mais tarde surgiu uma conhecida casa de fata√ßa e enguia.
 
Abílio de Matos Branco, o barbeiro do outro lado da estrada, foi o senhor que se seguiu. Manteve os dois negócios durante algum tempo, teve um barbeiro a seu cargo e o jovem Alberto que vendia jornais de porta a porta. O Alberto Barbeiro, homem de meticulosa memória, foi herdeiro de ofício do Abílio e garante que o Abílio veio do Pedrógão em 1939 para aprender a ser barbeiro com o Artur Manha, nos Riachinhos. Alberto lembra-se, por exemplo, que se vendia tanto vinho que às sextas-feiras a barbearia nem sequer abria, porque era preciso fazer as contas dos clientes que durante a semana entravam e saíam durante todo o dia para beber um copito de cada vez.
 
No tempo da taberna do Santo Antoninho, a mais antiga de que h√° mem√≥ria, era o filho Justino que trabalhava ao balc√£oEntretanto o Ab√≠lio foi para Lisboa aprender a ser cabeleireiro de mulheres e, quando regressou, abriu ao lado da taberna um espa√ßo dedicado a elas. Nessa altura, no Largo j√° havia a Maria do C√©u, que cortava o cabelo a mulheres, mas foi na taberna/cabeleireiro do Ab√≠lio que foram feitas as primeiras permanentes da terra: ‚Äúsa√≠amos de l√° com uns carac√≥is que at√© parec√≠amos umas pretas‚ÄĚ, diz a rir-se uma das actuais clientes da Lolita, a filha que herdou o sal√£o que o Ab√≠lio abriu na zona do Largo, menos de uma d√©cada depois de ter ficado com a taberna.
Sempre arrendada a Ermelinda Marques (irmã do Dr. José Marques), no par de anos que se seguiu a taberna foi gerida por Feliciano Granata (da Caveira, também barbeiro, é um dos mais carismáticos adeptos do Atlético) e pelo Redol (da Golegã, trabalhador dos Luzes).
Até que veio outro dono efémero, o José Fernandes, pai da Vitória. Deixou a taberna que tinha no Rossio de São Sebastião, em Torres Novas, numa esquina que já não existe, para vir para a Estação. Dois anos depois, em 1970, deixou o negócio à filha, originária do Casal do Picoto, que andava então a vender têxteis nos mercados com o marido. Quando morreu o marido, Vítor Fonseca, mudou o nome para Casa Vitória e só há poucos anos actualizou o alvará, tornando a taberna em café.
 
Aspecto da velha sala dos ¬ęcomeres¬Ľ, com a pipa ao fundoO fim das tabernas veio com as mudan√ßas da sociedade, mas veio principalmente pela via administrativa, quando o governo deixou de conceder alvar√°s de taberna, depois de querer impor os balc√Ķes de inox e proibir as pipas, entre outras exig√™ncias em nome da ‚Äúhigiene‚ÄĚ nos estabelecimentos que n√£o se coadunavam minimamente com a realidade existente. A saudade da taberna e a cr√≠tica est√£o bem presentes no discurso da Vit√≥ria.
 
Peixe frito, petinga de escabeche, chispe, m√£o de vaca, cabe√ßa de porco, sardinhas de cebolada, orelha temperada, ensopado de enguias, petinga albardada e no forno, eram alguns dos petiscos da Vit√≥ria. ‚ÄúIsso era quando deixavam trabalhar a gente, agora √© uma tristeza, n√£o nos querem deixar trabalhar. Com a licen√ßa de taberna podia fritar tudo, fazer tudo, ningu√©m implicava com a gente‚ÄĚ, diz ao lembrar-se de coisas impens√°veis no dia de hoje, como fritar past√©is de bacalhau num fogareiro a petr√≥leo ao p√© do balc√£o feito de travessas da linha do comboio. √Äs vezes fazia-os especificamente para degusta√ß√£o do Manel Pescador, que trabalhava na f√°brica do √°lcool e era um cliente amigo.¬†
 
Lembra-se dos nomes dos velhos clientes, lembra-se de trabalhar de noite e de dia para atender toda a gente e agora at√© lhe ‚Äúchegam as l√°grimas aos olhos‚ÄĚ quando, de vez em quando, faz aqueles cozinhados para si e para a fam√≠lia, e que antes fazia quotidianamente para a freguesia.
A familiaridade com os clientes √© o aspecto mais valorizado pela Vit√≥ria, quando queremos saber da sua vida. Sabe estimar os fregueses e sabe do neg√≥cio que lhe est√° no sangue desde nova. ‚ÄúOs meus clientes t√™m muita estima√ß√£o pela casa, por mim, pelos meus filhos, e tamb√©m s√£o eles todos estimados. At√© estimo muito alguns mais novos, filhos daqueles que j√° c√° vinham. Tenho muita estima√ß√£o pelo balc√£o e por os aviar. Tenho muito amor por isto, mas agora √© s√≥ lutar‚ÄĚ, lutar para manter a casa, diz.

Enquanto fizemos a entrevista, quatro clientes entraram em momentos separados. Cada um, ao reparar que a Vit√≥ria estava ocupada, disse ol√° e foi-se aviar. Entretanto, telefona um agricultor a perguntar se a Vit√≥ria podia abrir mais cedo no dia seguinte, para servir o caf√© √†s mulheres que v√£o para o campo. √Č ‚Äúa amizade atr√°s do balc√£o‚ÄĚ.
Vitor e Vitória Fonseca com os filhos Ana Cristina (ao colo) e Moisés. Nos primeiros anos no quintal, com o senhor Cristo, que ajudava na cozinha
 
 
Actualizado em ( Quarta, 12 Novembro 2014 12:30 )  

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