o riachense

SŠbado,
23 de Setembro de 2017
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Os milagres de Maria da Rosa

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Carlos Manuel Pereira

Em 10 de Setembro de 17461, a Inquisição deu ordem para que Maria da Rosa, moradora no Espargal da freguesia de Santiago, fosse presa e entregue no cárcere secreto do Santo Ofício em Lisboa, onde deu entrada sete dias depois.Vamos ver como os Inquisidores Apostólicos contra a herética pravidade e apostasia na Cidade de Lisboa e seu distrito2 descobriram uma pobre e infeliz rapariga, perdida no meio de nenhures, que dizia ser natural do lugar da Brogueira e que tinha de idade dezassete anos que fez em domingo da rosa3.
 
A Maria da Rosa vivia com a av√≥ num casal perto do casal dos Castelos onde morava um tal Vicente Sim√£o que ter√° feito chegar ao prior da freguesia a not√≠cia do milagre duma imagem de cristo que suava √°gua e sangue. O prior ter√° mandado o padre cura averiguar se seria milagre verdadeiro ou se seria algum fingimento. O cura, quando se deslocou ao casal, ter√° incumbido um vizinho homem temente a deus e outras pessoas mais que se pusessem ao p√© da dita imagem e que n√£o deixassem chegar pessoa alguma ao dito altar e observassem com muito cuidado se corria da dita imagem algum suor ou sangue, e estando as ditas pessoas mais de vinte e quatro horas ao p√© da dita imagem, vigiando o que lhe estava encomendado, viram que n√£o correu mais √°gua alguma nem sangue. Entretanto o prior, por lhe constar que as pessoas continuavam a ir ver o milagre e parecendo-lhe que tudo era fingimento e embuste, para evitar irrever√™ncias, mandou buscar a dita imagem e a p√īs no seu orat√≥rio com dec√™ncia e n√£o houve mais demonstra√ß√£o alguma nem de suor nem de sangue. Acrescentou tamb√©m o prior que a av√≥ era pessoa de pouco ju√≠zo e capaz de ser enganada pela neta e que esta tamb√©m de pouca capacidade, com dezasseis ou dezassete anos de idade, e andar com grande √Ęnsia de casar com um mo√ßo seu vizinho das Vendas cujo mo√ßo tamb√©m queria casar com ela, e como a m√£e do dito mo√ßo n√£o quer que este case com ela, parece-lhe que a Maria da Rosa fazia aquele fingimento para ver se persuadia a m√£e do mo√ßo que ela era pessoa de virtude e quisesse de boa vontade que seu filho casasse com ela. Os testemunhos de v√°rios vizinhos falam tamb√©m dos cheliques que a Maria da Rosa tinha na presen√ßa deles e que eram sete almas que tinham entrado nela e estavam √† espera de serem salvas e para isso reclamavam o cumprimento de v√°rias promessas. Segundo a pr√≥pria Maria da Rosa, o padre eterno vinha a sua casa para a ensinar a ler e, acompanhado de anjos, para dizer missa. Enfim, tudo lenha para se queimar.
 
Para a Inquisição não bastavam os testemunhos porque o que lhes interessava era ouvir da ré uma confissão declarando a verdadeira intenção que teve em cometer os crimes. E se o fez para introduzir, como se presume com seus escandalosos fingimentos, erros e doutrinas novas opostas às verdades de nossa santa fé católica. A Inquisição temia o perigo da subversão da fé católica.
 
Maria da Rosa, após três meses de cárcere (das torturas não ficou registo), confessou que achando-se ela em companhia de sua avó materna, passando muitas e gravíssimas necessidades, não tendo com que as poder remediar e vendo-se também abatida e desprezada de todos por causa da sua muita pobreza, entrou no pensamento de fingir alguma cousa de que se pudesse ficar entendendo que ela era mulher santa e virtuosa e particularmente favorecida de deus porque desta sorte poderia conciliar respeito e veneração de todos ficando mais estimada e seria também favorecida com largas esmolas de que muito necessitava.Como a confissão não agradou ao senhor inquisidor, lá voltou ao cárcere por mais seis meses, findos os quais voltou à presença do inquisidor para insistir que não teve outra intenção senão a que já tinha confessado. 
 
Ap√≥s mais tr√™s meses de insist√™ncias para que confessasse toda a verdade para descargo de sua consci√™ncia e salva√ß√£o de sua alma, ela manteve a mesma confiss√£o e, finalmente, √© mandado que v√° ao auto p√ļblico de f√© e nele ou√ßa sua senten√ßa. Ser√° a√ßoitada pela ruas p√ļblicas desta cidade e a degradam por tempo de tr√™s anos para a cidade de Leiria.Publicada foi a senten√ßa √† r√© Maria da Rosa no auto p√ļblico da f√© que se celebrou em os 24 dias do m√™s de setembro de 1747, estando presentes el-rei nosso senhor dom Jo√£o o 5¬ļ muita nobreza e povo.¬†
 
Não consta, por pesquisa nos registos paroquiais, que a Maria da Rosa tenha voltado para Torres Novas após cumprir o degredo em Leiria. 
Uma coisa é certa, se o céu dos católicos existe, se a justiça divina é mais decente que a da Inquisição, se a Maria da Rosa não decidiu, por exemplo, candidatar-se ao céu de outra religião, certamente, passados 200 anos, terá deixado o purgatório a caminho do céu, após o papa João Paulo II ter apresentado no ano 2000 um pedido de perdão pelos erros cometidos pela igreja católica ao longo da sua história.

1 - O processo por ser consultado em:  http://digitarq.dgarq.gov.pt/ com a referência: PT/TT/TSO-IL/028/08104
2 - As partes de texto em itálico foram extraídas do processo.
3 - Refere-se ao 4¬ļ domingo da quaresma.
 

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