o riachense

TerÁa,
14 de Julho de 2020
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A Barbearia Tomé

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À terceira incursão na história dos estabelecimentos mais antigos de Riachos que continuam abertos, fizemos um desvio da temática das tabernas.

A Barbearia Tomé não é nem nunca foi uma taberna. Foi sempre barbearia e é a casa comercial de Riachos cuja gerência está na mesma família há mais tempo. A sua relocalização na semana passada para a rua do Correio (na antiga papelaria do Largo) pareceu-nos ser uma ocasião para não deixar escapar uma entrevista.

H√° bem mais de um s√©culo que a pequena loja situada na Rua de Santo Ant√≥nio estava aberta continuadamente, como aquilo a que hoje chamamos ‚Äúum barbeiro √† moda antiga‚ÄĚ. Pedimos a Carlos Duarte Tom√©, o barbeiro, que puxe pela mem√≥ria e nos diga h√° quanto tempo abriu o estabelecimento. As contas fazem-se por refer√™ncias familiares: o espa√ßo passou do seu av√ī para o pai e para o tio, e depois para si.

Jos√© Lopes Tom√© foi o primeiro. Provavelmente abriu o neg√≥cio antes de 1900, mas a verdade √© que ele j√° era casado quando o fez e tamb√©m √© verdade que morreu ainda novo, por isso n√£o h√°-de ter sido muito mais de uma d√ļzia de anos que l√° esteve a tratar da barba e do cabelo aos homens e rapazes de Riachos.

Depois foi o pai, Manuel Tomé, que juntamente com o tio, José Tomé, geriu o espaço. Quando o jovem Carlos Duarte Tomé ficou com idade de trabalhar, aos 15 anos, entrou para o lugar do tio, que abriu então a sua própria barbearia no sítio onde está hoje o ourives Filinto.

Resumindo: depois do av√ī, o pai trabalhou l√° durante 50 anos e o filho Carlos j√° l√° est√° h√° 63. Nunca teve outro trabalho sen√£o o de barbeiro e conta hoje com 78 anos.

Tirou a carteira profissional j√° com uma longa experi√™ncia, por volta de 1975, porque quis melhorar o que j√° sabia e porque a lei a isso obrigou. Recorda agora o epis√≥dio que, antes disso, poderia ter mudado radicalmente o curso da sua vida. Em finais da d√©cada de 60, um homem entrou e sentou-se. Havia algo de estranho naquela presen√ßa, por isso Tom√© perguntou-lhe o que √© que ele queria. Respondeu que preferia esperar pela conclus√£o do servi√ßo que decorria na cadeira, para depois falar. Quando despachou o cliente, ouviu ent√£o a proposta: lev√°-lo para Inglaterra para trabalhar num grande sal√£o, situado j√° n√£o se lembra onde. Ficou satisfeito por se terem dado ao trabalho de o vir convidar, realmente tinha j√° nessa altura muitos clientes de fora, mas ficou de dar a resposta mais tarde. Quando chegou a casa e falou no assunto √† fam√≠lia, a decis√£o rapidamente foi tomada: ‚Äúera uma filha a chorar para um lado e a outra a chorar para outro‚Ķ‚ÄĚ, escolheu ficar. Preferiu a estabilidade que tinha na pacatez riachense. Hoje tem netos que at√© podiam aprender o of√≠cio, mas os tempos s√£o outros, a dinastia de barbeiros Tom√© terminar√° com ele.

A barbearia foi o sustento da sua família desde sempre. Está aposentado e diz que o motivo pelo qual continua a trabalhar é porque a reforma é muito pequena. Mas a verdade é que também diz que sempre gostou de ser barbeiro, de ser despachado no serviço e da satisfação dos clientes, assim como do convívio que isso tudo proporciona.

Riachos sempre teve v√°rios barbeiros em simult√Ęneo (actualmente existe ainda o Alberto Barbeiro, na zona da esta√ß√£o). Mas haver√° algum homem em Riachos que n√£o tenha passado pela tesoura do Tom√©? Centenas foram l√° rapar o cabelo no momento de transi√ß√£o que era ir para a tropa. E, ao acompanhar as mudan√ßas para a casa nova, logo ali encontr√°mos um homem de 55 anos que nunca cortou o cabelo noutro lado.

Esse homem preparava-se para carregar as duas cadeiras Ant√≥nio Pessoa, um tipo de objectos que hoje s√£o preservados como rel√≠quias, nomeadamente para fins decorativos. As famosas iniciais da marca ‚ÄúAP‚ÄĚ estiveram presentes em quase todas as barbearias de Portugal no s√©culo XX, assim como nas balan√ßas antigas que ainda vemos nos mercados e algumas mercearias. Era a √ļnica f√°brica que as produzia. Carlos Tom√© comprou-as em Lisboa h√° largas d√©cadas e, apesar de n√£o serem o topo de gama, s√£o bem mais confort√°veis do que as velhas cadeiras de manivela, em madeira, do tempo do seu pai, iguais √† que est√° no Museu Agr√≠cola.

S√≠tio privilegiado de conversas e de acompanhamento da actualidade ‚Äď que mais fazer enquanto se espera pela vez, al√©m que conversar ou ler o jornal? ‚Äď a Barbearia Tom√© teve outras atrac√ß√Ķes para l√° dos calend√°rios do Benfica ou do carism√°tico recorte do senhor de bigode e brilhantina que nos acolhe √† entrada. Um camale√£o do Algarve ali viveu em meados dos anos 80. Fazia as del√≠cias dos pequenos que l√° iam com as m√£es ou com os pais para cortar o cabelo e fez de Tom√© o campe√£o da ca√ßa √†s moscas, n√£o comia mais nada, eram √†s dezenas por dia. Ali estava ele, do tamanho de um dedo, com o seu ar simp√°tico como todos os camale√Ķes, e sempre est√°tico numa das bancadas ao p√© do espelho em frente √† cadeira. Parecia que dava um choque quando a l√≠ngua se desenrolava repentinamente para apanhar uma mosca que o Tom√© lhe punha √† frente transportada na rede do mata-moscas. Hibernava numa gaiola que o dono lhe instalou na barbearia e foi o seu companheiro durante quatro anos, at√© que um dia n√£o acordou do sono do inverno. Tom√© tinha amizade ao bicho de estima√ß√£o e ganhou um grande desgosto com a sua morte. Prometeu que nunca mais queria outro para o seu lugar.

O apego √†s coisas e ao s√≠tio onde sempre se trabalhou com prazer e que se tornou o posto de observa√ß√£o do mundo √© necessariamente forte. Por isso a maior m√°goa do Tom√© √© ter agora de sair dali. O telhado da velha casa est√° a dar de si, passar ali mais um inverno seria perigoso. A tristeza √© testemunhada pela esposa, Elisa Tom√©, que diz que ele foi ficando cada vez mais em baixo com a aproxima√ß√£o das mudan√ßas. ‚ÄúNunca pensou sair dali, foi complicado aceitar a ideia‚ÄĚ, diz. Contou com a solidariedade dos familiares.

Mas o novo s√≠tio tem praticamente o dobro do espa√ßo e muito melhores condi√ß√Ķes. N√£o vai ser, nem de longe nem de perto, t√£o rent√°vel, por causa da nova renda, mas vai-se acostumar depressa √†s instala√ß√Ķes e ao sossego do Largo, comparado com a az√°fama constante que era a estrada nacional. A porta j√° est√° aberta desde o dia 21 de Outubro.


 

Actualizado em ( Quarta, 22 Outubro 2014 10:16 )  
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