o riachense

Domingo,
29 de Novembro de 2020
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A Barbearia Tomé

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À terceira incursão na história dos estabelecimentos mais antigos de Riachos que continuam abertos, fizemos um desvio da temática das tabernas.

A Barbearia Tomé não é nem nunca foi uma taberna. Foi sempre barbearia e é a casa comercial de Riachos cuja gerência está na mesma família há mais tempo. A sua relocalização na semana passada para a rua do Correio (na antiga papelaria do Largo) pareceu-nos ser uma ocasião para não deixar escapar uma entrevista.

Há bem mais de um século que a pequena loja situada na Rua de Santo António estava aberta continuadamente, como aquilo a que hoje chamamos “um barbeiro à moda antiga”. Pedimos a Carlos Duarte Tomé, o barbeiro, que puxe pela memória e nos diga há quanto tempo abriu o estabelecimento. As contas fazem-se por referências familiares: o espaço passou do seu avô para o pai e para o tio, e depois para si.

José Lopes Tomé foi o primeiro. Provavelmente abriu o negócio antes de 1900, mas a verdade é que ele já era casado quando o fez e também é verdade que morreu ainda novo, por isso não há-de ter sido muito mais de uma dúzia de anos que lá esteve a tratar da barba e do cabelo aos homens e rapazes de Riachos.

Depois foi o pai, Manuel Tomé, que juntamente com o tio, José Tomé, geriu o espaço. Quando o jovem Carlos Duarte Tomé ficou com idade de trabalhar, aos 15 anos, entrou para o lugar do tio, que abriu então a sua própria barbearia no sítio onde está hoje o ourives Filinto.

Resumindo: depois do avô, o pai trabalhou lá durante 50 anos e o filho Carlos já lá está há 63. Nunca teve outro trabalho senão o de barbeiro e conta hoje com 78 anos.

Tirou a carteira profissional já com uma longa experiência, por volta de 1975, porque quis melhorar o que já sabia e porque a lei a isso obrigou. Recorda agora o episódio que, antes disso, poderia ter mudado radicalmente o curso da sua vida. Em finais da década de 60, um homem entrou e sentou-se. Havia algo de estranho naquela presença, por isso Tomé perguntou-lhe o que é que ele queria. Respondeu que preferia esperar pela conclusão do serviço que decorria na cadeira, para depois falar. Quando despachou o cliente, ouviu então a proposta: levá-lo para Inglaterra para trabalhar num grande salão, situado já não se lembra onde. Ficou satisfeito por se terem dado ao trabalho de o vir convidar, realmente tinha já nessa altura muitos clientes de fora, mas ficou de dar a resposta mais tarde. Quando chegou a casa e falou no assunto à família, a decisão rapidamente foi tomada: “era uma filha a chorar para um lado e a outra a chorar para outro…”, escolheu ficar. Preferiu a estabilidade que tinha na pacatez riachense. Hoje tem netos que até podiam aprender o ofício, mas os tempos são outros, a dinastia de barbeiros Tomé terminará com ele.

A barbearia foi o sustento da sua família desde sempre. Está aposentado e diz que o motivo pelo qual continua a trabalhar é porque a reforma é muito pequena. Mas a verdade é que também diz que sempre gostou de ser barbeiro, de ser despachado no serviço e da satisfação dos clientes, assim como do convívio que isso tudo proporciona.

Riachos sempre teve vários barbeiros em simultâneo (actualmente existe ainda o Alberto Barbeiro, na zona da estação). Mas haverá algum homem em Riachos que não tenha passado pela tesoura do Tomé? Centenas foram lá rapar o cabelo no momento de transição que era ir para a tropa. E, ao acompanhar as mudanças para a casa nova, logo ali encontrámos um homem de 55 anos que nunca cortou o cabelo noutro lado.

Esse homem preparava-se para carregar as duas cadeiras António Pessoa, um tipo de objectos que hoje são preservados como relíquias, nomeadamente para fins decorativos. As famosas iniciais da marca “AP” estiveram presentes em quase todas as barbearias de Portugal no século XX, assim como nas balanças antigas que ainda vemos nos mercados e algumas mercearias. Era a única fábrica que as produzia. Carlos Tomé comprou-as em Lisboa há largas décadas e, apesar de não serem o topo de gama, são bem mais confortáveis do que as velhas cadeiras de manivela, em madeira, do tempo do seu pai, iguais à que está no Museu Agrícola.

Sítio privilegiado de conversas e de acompanhamento da actualidade – que mais fazer enquanto se espera pela vez, além que conversar ou ler o jornal? – a Barbearia Tomé teve outras atracções para lá dos calendários do Benfica ou do carismático recorte do senhor de bigode e brilhantina que nos acolhe à entrada. Um camaleão do Algarve ali viveu em meados dos anos 80. Fazia as delícias dos pequenos que lá iam com as mães ou com os pais para cortar o cabelo e fez de Tomé o campeão da caça às moscas, não comia mais nada, eram às dezenas por dia. Ali estava ele, do tamanho de um dedo, com o seu ar simpático como todos os camaleões, e sempre estático numa das bancadas ao pé do espelho em frente à cadeira. Parecia que dava um choque quando a língua se desenrolava repentinamente para apanhar uma mosca que o Tomé lhe punha à frente transportada na rede do mata-moscas. Hibernava numa gaiola que o dono lhe instalou na barbearia e foi o seu companheiro durante quatro anos, até que um dia não acordou do sono do inverno. Tomé tinha amizade ao bicho de estimação e ganhou um grande desgosto com a sua morte. Prometeu que nunca mais queria outro para o seu lugar.

O apego às coisas e ao sítio onde sempre se trabalhou com prazer e que se tornou o posto de observação do mundo é necessariamente forte. Por isso a maior mágoa do Tomé é ter agora de sair dali. O telhado da velha casa está a dar de si, passar ali mais um inverno seria perigoso. A tristeza é testemunhada pela esposa, Elisa Tomé, que diz que ele foi ficando cada vez mais em baixo com a aproximação das mudanças. “Nunca pensou sair dali, foi complicado aceitar a ideia”, diz. Contou com a solidariedade dos familiares.

Mas o novo sítio tem praticamente o dobro do espaço e muito melhores condições. Não vai ser, nem de longe nem de perto, tão rentável, por causa da nova renda, mas vai-se acostumar depressa às instalações e ao sossego do Largo, comparado com a azáfama constante que era a estrada nacional. A porta já está aberta desde o dia 21 de Outubro.


 

Actualizado em ( Quarta, 22 Outubro 2014 10:16 )  
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