o riachense

TerÁa,
14 de Julho de 2020
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O Retiro do Agricultor

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Albino Pereira Lopes, na fotografia por volta de 1960, foi o quarto dono do estabelecimentoDo Retornado, alvo do nosso primeiro artigo, saltamos para o Agricultor. O Retiro do Agricultor, o sitio dos petiscos na Rua do Campo, normalmente √© chamado simplesmente de Agricultor, mas a verdade √© que esta taberna ainda mant√©m no seio da popula√ß√£o riachense os diversos nomes dos v√°rios donos que por l√° passaram antes da transforma√ß√£o no actual caf√©: o Boneco, o Renana, o Albino, o Feij√£o. J√° n√£o h√° muitos que se lembrem deles todos, mas h√° muitos que ainda se lembram do espa√ßo da taberna e mercearia. Onde √© hoje a parte do caf√© era a mercearia, onde estavam dispostos os produtos e, depois de descer os degraus, onde hoje √© o pequeno restaurante de petiscos, era a taberna, onde existia o velho balc√£o em ‚ÄėL‚Äô (reza a hist√≥ria que cada cliente tinha a sua medida e que assim que entrava no estabelecimento, j√° o taberneiro estava a servi-lo) e, logo √† entrada, os compartimentos para venda a granel de gr√£o, milho, feij√£o.

Vamos ent√£o tra√ßar o mapa da vida do Agricultor seguindo a ordem dos diferentes donos dessa antiga taberna do ‚ÄėBarro Cavado‚Äô, nesses tempos praticamente fora da aldeia.
 
H√° quem se lembre do Boneco, mas j√° n√£o h√° quem se lembre do seu pai, Manuel Gandarez, que ter√° montado o estabelecimento na casa que agora tem o n√ļmero 51 h√° mais de cem anos, naquela art√©ria da aldeia bastante circulada por causa dos trabalhadores do campo. At√© perto de 1950, a taberna e loja manteve-se na esfera familiar, passando por tr√™s gera√ß√Ķes. Do pai passou para o filho Manuel Jorge Gandarez ‚ÄėBoneco‚Äô. Mais tarde passou para o sobrinho deste: Francisco Jorge da Luz, o Renana era filho da Maria Quit√©ria, irm√£ do Boneco. Situando melhor a fam√≠lia, podemos indicar que o Renana era irm√£o do Manuel da Luz, o s√≥cio n√ļmero um da Columb√≥fila de Riachos.
 
Saber a origem das alcunhas n√£o √© mais do que curiosidade, √© mais a sonoridade da palavra e a capacidade de tornar uma pessoa ou uma fam√≠lia √ļnicas no mundo de determinam a sua perenidade. Da alcunha do Boneco n√£o conseguimos perceber a origem. J√° o Renana, chamaram-lhe assim porque era pedreiro de profiss√£o e gago por defeito. Conta a vi√ļva Em√≠lia Ferreira que a alcunha vem de quando era servente e teve um patr√£o que se chamava Hernani...
Diz o Toino Mendes que é, com os seus oitenta e tal anos, uma testemunha desses tempos, que o Renana exercia os seus excelentes dotes de cantor na igreja e que era um homem divertido, danado para a paródia. Depois de alguns anos, a taberna do Renana mudou-se para a esquina da Rua do Campo com a Rua do Casal do Vale, havendo durante algum tempo duas tabernas no Barro Cavado.
Foi quando o Albino Pereira Lopes, um vizinho do Alto da Machada, arrendou o espa√ßo √† Maria Quit√©ria. Ter√° sido quem se aguentou mais tempo √† frente do neg√≥cio: mais de 30 anos, entre os √ļltimos anos da d√©cada de 40 e 1977. Na realidade, a Taberna do Albino era a Taberna da Maria do Albino, porque o homem trabalhava na f√°brica do √°lcool e era a mulher que geria o estabelecimento. S√≥ aos ser√Ķes √© que ia tomar conta da taberna.
Ao longo de todas as décadas em que existiu, esta taberna, como a maioria dos estabelecimentos comerciais no espaço rural, mostrou bem a divisão dos géneros pelos seus papéis sociais: a loja recebia as mulheres e a taberna recebia os homens.
 
Quem tem o maior n√ļmero de recorda√ß√Ķes da vida anterior do Agricultor s√£o os quatro filhos do Albino, que a√≠ viveram os seus anos de juventude antes de irem todos trabalhar para Lisboa.
 
Quando os pais tomaram conta do com√©rcio, Carlos Albino tinha quatro anos. Obviamente as suas personalidades foram influenciadas pelas viv√™ncias que tinham diariamente na loja e na taberna, diz Carlos. Lembra-se de que era um ‚Äúcentro de conv√≠vio‚ÄĚ, lembra-se do jogo do chinquilho (no espa√ßo ao lado do restaurante, onde hoje se vai fumar e beber um copo com vista para o vale at√© ao Alto da Machada), lembra-se dos homens a jogar √†s cartas e das conversas, lembra-se do campeonato do mundo de 66 na televis√£o e do Benfica, apesar de ser sportinguista (‚Äúdantes toda a gente era do Sporting. O Benfica s√≥ ficou grande por causa da televis√£o, que apareceu mesmo quando o Benfica ganhou alguma coisa‚ÄĚ), lembra-se do Ant√≥nio Lontro, um ‚Äúgrande contador de hist√≥rias‚ÄĚ, que juntava 20 pessoas num √°pice para ouvir a hist√≥ria do le√£o e do porco-espinho. ‚ÄúAs pessoas eram pobres, vivia-se mal‚Ķ a vida na taberna era um grande conv√≠vio‚ÄĚ, diz.¬†
 
 Lembra-se que a loja vendia tudo o que era preciso ter em casa: carvão, petróleo, infusas, roupa, baraços, carne. Todas as semanas mandavam matar um porco no matadouro em Torres Novas. Ninguém tinha frigoríficos em casa, pelo que o animal era desmanchado aos sábados e no domingo já a carne tinha sido toda vendida, lembra. Só algum toucinho ia para a salgadeira.
 
Nessa altura, j√° nas facturas do Albino aparecia a designa√ß√£o ‚ÄúFlor do Bairro‚ÄĚ, mas ainda faltavam uns anos at√© vir a m√°quina do caf√©, cuja exist√™ncia √© o que distingue uma taberna de um caf√©. N√£o havia caf√© nas tabernas.
 
Anabela Oliveira está há 14 anos à frente da casa que agora é conhecida pelos petiscos
Com os donos j√° velhos, a taberna do Albino n√£o teve sucess√£o na fam√≠lia e fechou. Veio ent√£o, j√° depois do 25 de Abril, o Arm√©nio Feij√£o, outro vizinho, que foi o primeiro presidente da Junta de Riachos, e abriu aquela que ficou conhecida por Taberna do Feij√£o, com a sua esposa Helena. Esteve aberta pouco mais de meia d√ļzia de anos, at√© 1985. Os filhos lembram que os pais n√£o eram comerciantes, por isso √© que a experi√™ncia n√£o durou muito tempo. Mas ficaram com hist√≥rias para contar. A Lu√≠sa lembra-se por exemplo do Joaquim Inverno, um cliente di√°rio cuja express√£o preferida, quando o afrontavam, era ‚ÄúEu? Toca-lhe!‚ÄĚ.
 
A S√£o Benjamim foi a √ļltima senhora desta taberna. A taberna do ‚ÄėZ√© das Obras‚Äô (Jos√© Felipe Guardado, o marido) veio a seguir ao Feij√£o e durou apenas durante um ano, n√£o chegando a fixar a clientela antes de ter fechado portas.
 
Com os anos 90 chegou Jorge Manuel Lopes, vindo de Maçãs de Dona Maria, concelho de Alvaiázere, que comprou o espaço, instalou-se com a família e o transformou finalmente em café e casa de petiscos. Estavam na moda os cafés com o nome de Retiro, e na Rua do Campo tinha de ser o do Agricultor. Ficaram logo famosas as moelas.
 
Oito anos depois, o Jorge foi para a zona de Tomar e passou o neg√≥cio para a cunhada, a actual propriet√°ria do Agricultor, m√£e do terceiro guarda-redes do Atl√©tico. ‚ÄėRetornada‚Äô da Su√≠√ßa, Anabela Oliveira trouxe o seu sotaque de Braga para Riachos, reabriu o restaurante no ano 2000 e consolidou a fama de casa de petiscos: moelas, molhinhos, frango frito, pica-pau, morcela, farinheira, codornizes, entre outras coisas apetitosas no √Ęmbito da cozinha caseira. O neg√≥cio agora j√° n√£o depende dos agricultores, diz-nos, mas ao fim da tarde ainda se nota o movimento da clientela dos campos, principalmente no ver√£o.

 


Actualizado em ( Quarta, 22 Outubro 2014 10:16 )  
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