o riachense

TerÁa,
14 de Julho de 2020
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O Retornado

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Se dissermos que vamos ao Caf√© 1.¬ļ de Maio, se calhar pouca gente saber√° onde √©. E ainda hoje h√° pessoas que chamam ao ‚ÄėRetornado‚Äô o Caf√© do Jo√£o ‚ÄėSoisa‚Äô.
 
A fronte do edifício na rua Entre Poços exibe a data da inauguração da antiga taberna naquele local por João Sousa Figueiredo, a 22/2/1955. O alvará de café é só de 1961 e foi comprado a um homem da Brogueira, que naquele tempo não era fácil tirar novos alvarás. Algures na primeira metade da década de 1970, João Sousa teve um acidente e adoeceu. Ainda estava o dono original vivo quando passou a ser o Café da Ti Maria que, poucos anos depois, o trespassou ao actual dono, António Gonçalves (o retornado), para abrir o Tronco, na rua do Correio, que o seu filho Manuel geriu até há poucos anos.
 
Um anci√£o da vila afian√ßa-nos que o Jo√£o Sousa era um homem popular, de respeito e inteligente. Esta caracter√≠stica sobressa√≠a no neg√≥cio, pr√≥spero e diversificado, e tamb√©m na forma como geria o espa√ßo: quando √†s vezes os √Ęnimos se exaltavam havia brigas, mas ‚Äúquando o Jo√£o Soisa levantava a voz, a malta baixava logo a bolinha‚ÄĚ.
 
Outros relembram as noites de quinta-feira, em que o caf√© ficava completamente cheio de homens para ver as touradas na televis√£o, ‚Äúno tempo do Am√©rico Thomaz‚ÄĚ. Como √© o caso do filho, Jos√© Dias Figueiredo, residente em Set√ļbal, que refere que o espa√ßo abriu como taberna, na porta situada entre a antiga oficina de sapateiro do Carlos Sim√Ķes e o actual caf√© e que hoje serve de armaz√©m. Era ali que as pessoas iam comer e beber, em particular muitos trabalhadores e clientes dos Luzes: muita gente de fora vinha ali ao peixe. Depois passou para caf√© e chegou tamb√©m a ser talho (matavam-se os porcos nas traseiras) que, em conjunto com o Jo√£o da Vaca, abastecia a vila de carne.
 
Longe v√£o os tempos em que os motoristas dos Luzes iam l√° com a l√©ria do costume: ‚Äúd√° a√≠ um caf√© para 100 km‚ÄĚ, lembra Jos√© Figueiredo.
Agora, finda a √©poca da casa de petiscos, O Retornado √© conhecido pelos carac√≥is. ‚ÄúO caracol j√° n√£o √© o que era‚ÄĚ, responde a senhora Rosa quando lhe perguntamos se este ano vai ter carac√≥is at√© ao fim de Setembro. Dantes, o s‚ÄôToino ia a Liteiros e a Our√©m buscar o caracol, que apanhavam por l√°, agora √© um comerciante que o vem entregar. Apesar de a receita ser a mesma, queixam-se de que o caracol agora √© magro, seco e tem pouca gordura, √†s vezes at√© amarga.
 
O actual dono √© Ant√≥nio Rosa Gon√ßalves, natural de Freixianda, e a mulher, Rosa Batista, √© de Alvai√°zere. Sa√≠ram de Angola em 1975, de perto de Nova Lisboa, na prov√≠ncia de Huambo, onde deixaram tudo: fazendas, cami√Ķes, tractores, animais e todo o neg√≥cio de pecu√°ria e com√©rcio. O mundo parece ter dado uma volta completa: o filho, Paulo, emigrou h√° poucos anos para l√° e chegou a reencontrar, no s√≠tio onde nasceu, pessoas conhecidas dos pais. ‚ÄúEu, se fosse novo? Ia-me j√° embora deste pa√≠s‚ÄĚ, diz Ant√≥nio Gon√ßalves, amargurado pela sangria de gente que observa em Portugal.
 
Em 1975 vieram viver para a quinta da Capa Rota, no concelho de Santar√©m. Ali, um homem de Riachos disse-lhes que o Caf√© 1.¬ļ de Maio estava a trespasse. ‚ÄėO Retornado‚Äô abriu em 1977 e apanhou ainda muitos anos da vivacidade que os Luzes davam √†quela zona da vila.
 
Antigamente, a senhora Rosa cozinhava petiscos todos os dias: febras, dobrada, codornizes, molhinhos, pataniscas, entre outras iguarias. Hoje √© quase s√≥ os carac√≥is no ver√£o e uns past√©is de bacalhau que v√£o servindo para ajudar a empurrar umas ta√ßas de tinto que ainda se v√£o vendendo. O vinho continua a ser o da casa, pelo menos at√© ao Natal √© o que se bebe, depois disso tem de reabastecer. Na carism√°tica mesa ao p√© da porta, onde se continuam a juntar os clientes mais velhos, era frequente servir 50 ta√ßas a meia d√ļzia de homens numa s√≥ tarde.
 
Quando a empresa de com√©rcio de peixe fechou, o neg√≥cio n√£o decaiu logo. Ainda antes j√° tinha come√ßado a aparecer uma freguesia diferente, com mais mulheres e fam√≠lias e n√£o s√≥ homens, diz-nos o s‚ÄôToino. Depois, a partir de meados da d√©cada de 1990, houve uns anos em que surgiu um certo entusiasmo pelo Retornado, muita rapaziada nova sentia-se atra√≠da pelas imperiais mais vivas do Ribatejo e pelo esp√≠rito de taberna t√≠pica. Estava sempre impecavelmente limpa, mas com o cheiro a cerveja e a vinho permanentemente a pairar. Era ali que muitos come√ßavam as noites: ‚Äúh√° dez anos atr√°s isto era um pandem√≥nio aos fins-de-semana‚ÄĚ, diz o taberneiro a sorrir.
 
Hoje há menos clientela, mas aos sábados e domingos à tarde, no verão, normalmente não há mesas livres, todos os dias sai uma panela de caracóis, O Retornado é um centro de atracção para o amante do caracol regional.
 
Agora, ele com 79 anos e ela com 70, acham-se velhos e cansados e desertos para que apare√ßa algu√©m para pegar no neg√≥cio. Apesar de n√£o ser propriamente uma taberna das antigas, o Retornado representa o fim do ciclo das tabernas em Riachos, pois √© dos √ļltimos espa√ßos que ainda mant√™m viva essa aura.
 

Actualizado em ( Quarta, 22 Outubro 2014 10:16 )  
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