o riachense

TerÁa,
25 de Abril de 2017
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Fidalgos que por aqui passaram

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Carlos Manuel Pereira
 
Um tal António Pires, ao tempo cura da igreja de Santiago, escreveu no primeiro livro de registos paroquiais que existiu nessa freguesia o seguinte: 
‚ÄúEra do nascimento de Jesus Cristo nosso senhor de 1541 aos 28 dias do m√™s de dezembro da sobredita era baptizei uma filha, por nome chamada Isabel, de dom Lu√≠s e de dona Brites e foram padrinhos um irm√£o da dita dona Brites e dona Isabel e uma mulher da Goleg√£ parteira e por verdade assinei aqui...‚ÄĚ 1
 
Quem é que gostaria de se dizer descendente dum rei, dum fidalgo ou de qualquer outra pessoa importante deste velho reino? A maior parte das pessoas, certamente.
 
Pois bem, vamos a ver quem era este dom Luís. Em dois assentos referentes a óbitos de escravos no Porto e na Quinta da Várzea fica clara a associação de dom Luís de Moura a estas propriedades, bem perto do sítio primitivo dos casais dos Riachos:
‚ÄúA 4 dias de fevereiro de 1594 anos faleceu francisco escravo de Sim√£o de Miranda da Quinta da v√°rzea que foi de Dom Lu√≠s de Moura.‚ÄĚ
‚ÄúDiniz escravo de Sim√£o de Miranda, que comprou a fazenda de Dom Crist√≥v√£o de Moura do porto da V√°rzea, faleceu a 14 de Agosto de 1591 anos. Jaz em o adro diante da porta principal.‚ÄĚ
 
A servir de confirmação, o segundo registo refere um dom Cristóvão de Moura, filho de dom Luís e que, por morte deste, terá herdado o porto e a quinta da Várzea para depois a vender, com escravos incluídos, ao Simão de Miranda. Para dramatizar, acrescente-se que o dom Cristóvão era velho conhecido e conselheiro do rei Filipe II de Espanha e que fez tudo para defender a sua coroação como rei de Portugal, após o desaparecimento trágico-cómico do nosso rei dom Sebastião. O rei espanhol nomeou-o seu vice-rei para Portugal e, claro está, os portugueses alcunharam-no de renegado e traidor. 
 
Tudo boa gente... e gente importante... e mais ainda, de acordo com o ‚Äúsite dos fidalgos, queques e betinhos‚ÄĚ (http://geneall.net), estes Mouras s√£o descendentes do primeiro rei de Portugal, nem mais nem menos.E quem √© que gostaria agora de ser seu descendente? Certamente menos que aqueles que responderam afirmativamente √† primeira pergunta. Para ajudar mais alguns a decidirem-se, vou mostrar-lhes um registo que acrescenta algo mais √† linhagem destes Mouras:
 
‚ÄúAos vinte dias de setembro [de 1545] baptizei eu Domingos Pires, cura da dita igreja, Lu√≠sa filha de Jorge, do vedor do paul, e de sua m√£e, filha de dom lu√≠s de moura, escravos cativos e foram compadres Ant√≥nio de Paiva e Andr√© Carrolas e Catarina Gon√ßalves e por verdade o escrevi.‚Ä̬†
 
Apesar de ter acrescentado as v√≠rgulas que n√£o existem no texto original, acho que a leitura se pode tornar dif√≠cil. Assim, o cura de Santiago ter√° baptizado uma crian√ßa de nome Lu√≠sa, filha de Jorge e de sua m√£e, ambos escravos cativos. O vedor do paul2 era o dono do pai da crian√ßa e a m√£e da crian√ßa, cujo nome √© omitido, era filha de dom Lu√≠s de Moura. Pois √©, parece que desta vez o cura resolveu escrever a verdade quase toda... Acrescente-se que em todos os outros registos de baptismos de filhos de escravas era costume mencionar apenas o nome da m√£e e o dono desta, por exemplo ‚Äú... baptizei lu√≠s filho de marta escrava de rodrigo de lemos...‚ÄĚ, nunca fazendo qualquer refer√™ncia ao pai da crian√ßa.
 
Evidentemente que soa mal dizer que o dom Lu√≠s de Moura era dono da pr√≥pria filha e da neta, mas nesta √©poca os escravos tinham um valor comercial elevado e n√£o se podia desperdi√ßar a utiliza√ß√£o das ‚Äúf√™meas‚ÄĚ para reprodu√ß√£o (isto dito assim ainda soa pior).
 
Quantos mais descendentes destes, meio escravos meio fidalgos, terá o dom Luís deixado por aqui? Não me parece difícil admitir que alguns tenham chegado até aos nossos dias e que, finalmente, alguns de nós sejamos mesmo descendentes de um fidalgo, ainda que por portas travessas, talvez pela porta mais travessa da nossa história, a da escravatura...
1As transcri√ß√Ķes foram feitas com ortografia actualizada.
2 O intendente das propriedades que compunham o senhorio do paul do Boquilobo.
 

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