o riachense

TerÁa,
14 de Julho de 2020
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Riachos, terra de imigrantes

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Carlos Manuel Pereira

Quando em meados do s√©culo XVI o tal Afonso Fernandes, Riacho de alcunha, escolheu o s√≠tio dos Casais dos Riachos para se fixar, est√°vamos num tempo em que era muito vulgar aparecerem nos registos paroquiais refer√™ncias a escravos. Em cerca de quatro d√©cadas aparecem, apenas na freguesia de Santiago, dezenas de registos em que s√£o mencionados escravos, mais especificamente referindo baptismos de filhos de escravas. Nos tempos em que a localidade nascia, ali ao lado na quinta da V√°rzea, era vulgar a men√ß√£o a escravos. No caso do Afonso Riacho apenas existem refer√™ncias a criados. √Č claro que a designa√ß√£o de criado servia perfeitamente para designar aqueles que eram libertados da escravatura e que continuavam a servir os mesmos senhores. At√© ao s√©culo XX era vulgar chamar criados aos indiv√≠duos que trabalhavam toda a vida para o mesmo senhor, por exemplo nas quintas √† nossa volta. N√£o sendo escravos, de facto, estavam ligados √† casa onde trabalhavam como se isso fosse ‚Äúda sua natureza‚ÄĚ.
 
Porém tudo parece indicar que o espírito existente nos casais dos Riachos fosse convidativo para indivíduos que esperavam encontrar um lugar onde pudessem trabalhar livremente e, como alguém disse, se o que faz uma localidade é o local e o local é generoso de recursos, então as pessoas acabarão por chegar e a localidade irá prosperar. Era tempo de imigração.
 
Nos s√©culos XVI e XVII os primeiros imigrantes s√£o, na sua maioria, naturais de lugares do pr√≥prio concelho, por exemplo, Brogueira, Alcorochel, Minde, Carreiro da Areia, √Ārgea, Lamarosa, Assentis, Gateiras, Valhelhas, Zibreira ou do corpo da pr√≥pria vila, ou de concelhos vizinhos (Tomar, Chamusca, Goleg√£, Azinhaga, S. Vicente do Pa√ļl, Atalaia).
 
A partir dos finais s√©culo XVII come√ßam a aparecer fam√≠lias de alguns concelhos mais distantes (nomeadamente Our√©m, Leiria, Pombal, Penacova, Soure, Ansi√£o, Penela) que, por liga√ß√£o √†s j√° existentes no Espargal, deram origem a esta profus√£o de primos e delas se seguem alguns exemplos (v√£o indicadas as datas aproximadas da sua chegada aos Riachos e o n√ļmero dos seus descendentes aqui nascidos at√© 1910):
GOMES (1670) ‚Äď provavelmente da vila de Torres Novas, com mais de 1800 descendentes.
 
GOMES dos SANTOS (1700) ‚Äď provavelmente da vila de Torres Novas, descendentes 1270.
MARQUES (1700) ‚Äď Cas√©vel, descendentes 1060. Apesar do not√°vel n√ļmero de descendentes, nenhum usou este apelido porque este Jos√© Marques de Cas√©vel apenas deixou filhas.
NUNES (1700) ‚Äď Marmeleiro, freg. Madalena, Tomar, descendentes 1180. Os MAUR√ćCIOS s√£o um ramo destes Nunes. Os MATOS tamb√©m s√£o descendentes destes Nunes, por via do apelido duma Margarida de Matos que veio de Almeirim e casou com um Martinho Nunes.¬†
AZEVEDO (1740) ‚Äď Vieira do Minho, Braga, descendentes 520.
AMADO (1750) ‚Äď Alqueid√£o da Serra, Porto de M√≥s, descendentes 380.
BARROSO (1760) ‚Äď vieram das Marruas duas filhas de um tal Dami√£o Barroso, descendentes 680.
CHORA (1820) ‚Äď vila de Torres Novas, freg. de S. Pedro, descendentes 100.
MARQUES (1820) ‚Äď Leiria, descendentes 50.
Pela curiosidade, a seguir v√£o outros casos de apelidos por alguma raz√£o mais populares:
LUZ (1760) ‚Äď Pombal, descendentes 170. A primeira gera√ß√£o de Luzes nasceu nos Casais dos Castelos.
DUARTE, gaiteiro (1770) ‚Äď vieram de Vinha da Rainha, Soure, descendentes 100.
ANTUNES BARROSO (1800) ‚Äď vieram das Marruas, descendentes 120.
PAULA (1830) ‚Äď vieram da Lamarosa, descendentes 120.
REM√ćGIO (1840) ‚Äď s√£o descendentes de um Rem√≠gio Oliveira que veio de Paialvo, descendentes 60.
BARROCA (1850) ‚Äď descendem de um Manuel Jorge que veio de Cadima, Cantanhede e que casou com uma Maria da Guia, natural da Barroca (a localidade passou a apelido), descendentes 30.
SARAIVA (1870) ‚Äď vieram de Pena Verde, Aguiar da Beira, descendentes 15.
 
At√© √† primeira metade do s√©culo XX, antes de ser introduzida a mecaniza√ß√£o na agricultura, era usual a grande movimenta√ß√£o de pessoas que, vindas dos concelhos a norte, procuravam trabalho na zona das lez√≠rias do Tejo e depois, naturalmente, quando calhava encontrarem ‚Äúparceiro‚ÄĚ, por aqui ficavam‚Ķ¬†

Actualizado em ( Ter√ßa, 27 Janeiro 2015 23:03 )  
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