o riachense

TerÁa,
14 de Julho de 2020
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Era uma vez um homem que vivia no Casal do Riacho

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Carlos Manuel Pereira construiu uma base de dados onde registou todos os graus de parentesco em Riachos, desde o surgimento da povoação.

 

Carlos Manuel Pereira √© uma esp√©cie de contador de hist√≥rias com objectividade. Quase uma d√©cada de pesquisas documentais sobre as origens de Riachos transformou-o no historiador mais bem documentado desta freguesia com um territ√≥rio de 15 km2. A partir de uma pesquisa sobre a sua fam√≠lia e de tudo o que se passou para o papel nos √ļltimos 500 anos neste canto da par√≥quia de Santiago, extraiu provas do aparecimento inaugural da palavra Riacho, comprovou a veracidade da express√£o ‚Äúsomos todos primos‚ÄĚ, descobriu a import√Ęncia das alcunhas na individualiza√ß√£o das pessoas e registou muitos factos familiares que permitem inferir, por exemplo, a nomea√ß√£o de lugares ou a rela√ß√£o com a evolu√ß√£o da demografia. E muitas curiosidades, muitas, daquelas que lhe serviram de combust√≠vel para nunca mais largar a investiga√ß√£o de documentos antigos. Mas o bichinho veio de procurar a hist√≥ria da sua fam√≠lia.
 
O nono de doze irmãos, filhos de Alfredo Duarte Pereira e Henriqueta de Sousa, ainda conheceu os avós todos, embora tenha deles pouca memória, mas dos bisavós ficou apenas uma incógnita por desvendar, que se veio a manifestar mais tarde na forma de curiosidade pela história das famílias em Riachos.
 
Trinta anos depois de ter sa√≠do de Riachos, regressou aos 58 de idade, numa altura em que j√° tinha come√ßado a pesquisar sobre a sua fam√≠lia. Apesar do que poderia parecer, n√£o √© o ponto de vista rom√Ęntico sobre a sua terra que o move. No seu trabalho viu sempre as coisas o mais objectivamente poss√≠vel, assegura. √Č um historiador autodidacta que utiliza m√©todos rigorosos de registo e refer√™ncias e que j√° est√° a tentar contribuir para a hist√≥ria local.
 
Quando colocou as m√£os √† obra com o desejo de conhecer todos os seus antepassados, come√ßou no princ√≠pio: por volta de 1530, altura em que os livros dos registos paroquiais come√ßaram a ser escriturados com os eventos b√°sicos das fam√≠lias: nascimentos, casamentos e √≥bitos. Um ponto de partida suficientemente antigo para acompanhar o aparecimento dos primeiros n√ļcleos no territ√≥rio a que hoje se chama Riachos. E claro, ao verificar que os documentos dizem que em 1530 n√£o existia tal coisa chamada Riachos, a curiosidade estendeu-se logo √†s origens da povoa√ß√£o, na procura de pistas que apontassem para os seus primeiros moradores.
  
Algum tempo depois de se p√īr a ler os livros dos registos paroquiais de Santiago - demorou o seu tempo at√© o fazer com facilidade, pois teve de se adaptar a caligrafias manuais t√£o antigas - s√≥ quando chegou a 1570 encontrou um tal Afonso Fernandes, ‚Äúde alcunha o Riacho, morador em Valada, no termo da vila de Torres Novas‚ÄĚ. O Riacho ficou imortalizado num processo inquisitorial de 1554, √† espera que Manuel Pereira o viesse a descobrir no s√©culo XXI. Riacho ‚Äún√£o era mais do que uma alcunha dos lavradores que estavam aqui a meio do s√©culo XVI‚ÄĚ. Fam√≠lia e criados morariam no casal do Riacho e, alguns anos mais tarde, ir√° aparecer um registo de baptismo de um filho de um casal que diz ser morador nos Casais dos Riachos. Esse lavrador de alcunha Riacho ter√° sido o principal respons√°vel pela fixa√ß√£o de v√°rias fam√≠lias no lugar que haveria de ser conhecido por Casais dos Riachos. Enquanto ia registando todos os eventos de pessoas que diziam ser ali moradores, foi assistindo ao facto do nome do lugar passar a ser referido simplesmente por Riachos ‚Äúalgures no princ√≠pio do s√©culo XVII, parecia j√° bem definida uma localidade que assim nasceu naturalmente‚ÄĚ, diz o investigador.
E as descobertas paralelas começaram a aparecer. No tal processo da Inquisição, o Afonso Riacho aparece como fiador de um indivíduo da Zibreira que era cristão-novo, e que foi julgado em Lisboa. Tal relação significaria que o primeiro Riacho era judeu? Para já não passa de uma hipótese, enfraquecida pelo facto de o tal zibreirense ser mercador, o que fazia crer que tivessem apenas uma relação de negócios.
Depois de muitas pequenas grandes descobertas como estas que fizeram com que o seu ‚Äúautodidatismo‚ÄĚ n√£o passasse de um pormenor de percurso, chegado a este ponto e perante o risco de se perder esta informa√ß√£o toda, Manuel Pereira, programador inform√°tico de profiss√£o, tratou de arranjar uma base de dados para ir guardando tudo.
 

Afonso Fernandes Riacho, morador em Valada, no termo de Torres Novas,
aparece pela primeira vez num processo da Inquisição de 1554

 
Terminada a pesquisa na Torre do Tombo e de registo de quatro s√©culos de eventos familiares nos Casais do Riacho, Casais dos Riachos, Riachos, Lagar Novo, Casais Novos, Casal das Lobas, Casais Castelos, Esta√ß√£o do Minhoto, todos diversos n√ļcleos populacionais bem separados e com desenvolvimentos em √©pocas d√≠spares (disso falaremos mais abaixo), tornou-se f√°cil aceder √† √°rvore geneal√≥gica de qualquer pessoa que tenha vivido em Riachos at√© 1910, atrav√©s dessa base de dados.
Da pesquisa das hist√≥rias de fam√≠lia, com particular detalhe da sua pr√≥pria fam√≠lia, escancarou-se a Manuel Pereira uma outra an√°lise com conclus√Ķes que mais n√£o fazem do que confirmar uma outra tradi√ß√£o oral com base emp√≠rica: a maneira como evolu√≠ram e se ligaram as fam√≠lias todas em Riachos. Procurando os av√≥s (bis, tris, tetra, etc.) em comum, chega-se √† conclus√£o que quase todos os riachenses se casaram com pessoas de Riachos e t√™m um parentesco em 3.¬ļ ou 4.¬ļ grau.
 
Somos, de facto, todos primos, o que tem a ver, claro, com a dimens√£o do n√ļcleo pequeno que era Riachos. A riqueza da sua base de dados permite confirmar muitas outras coisas al√©m dos parentescos. Uma an√°lise da demografia local leva o pesquisador a afirmar que Riachos seria hoje uma aldeia como Brogueira ou Alcorochel, se n√£o tivesse chegado at√© ela o comboio. At√© aos princ√≠pios do s√©culo XIX, o n√ļmero de fam√≠lias estabilizou em cerca de 200, qualquer coisa como mil pessoas. √Č nas d√©cadas de 1840/50, que a curva sobe de forma acentuada. Com a esta√ß√£o dos comboios houve um fluxo migrat√≥rio impressionante, ainda o Entroncamento se come√ßava a formar. ‚ÄúHouve uma altera√ß√£o completa no tipo de popula√ß√£o‚ÄĚ, diz. Ali√°s, n√£o √© dif√≠cil encontrarmos pessoas com mais de 60 anos que se lembrem bem do movimento que existia, no in√≠cio do s√©culo XX, no largo da esta√ß√£o que, de resto, levou claramente ao crescimento do Lagar Novo, que j√° l√° estava de h√° muito tempo.¬†
Quando o padre registava as pessoas nos livros, Riachos era um lugar e o Lagar Novo era outro. Quantas pessoas que moram nos Casais Novos ou na Esta√ß√£o dizem, ainda hoje, ‚Äúvou ali ao Riacho‚ÄĚ, quando v√£o ao Largo? At√© aos tempos modernos, Riachos era apenas o n√ļcleo de casas √† volta da capela, no Largo. Ora, mais uma confirma√ß√£o daquilo que todos sab√≠amos mas que ganha outro sabor com a demonstra√ß√£o documental: aquilo que hoje √© topon√≠mia de uma vila, antigamente eram povoa√ß√Ķes diferentes. ‚ÄúOs Riachinhos chamar-se-√£o assim porque eram um n√ļcleo separado, era como se fosse um Riachos mais pequeno, quando o padre perguntava √†s pessoas de onde eram, elas diriam: - sou dali, √© um Riachinho‚ÄĚ, teoriza. Um caso bastante flagrante √© o Casal das Lobas. Um padre escreveu num registo j√° do s√©culo XVIII: ‚ÄúCasal das Lobas, junto dos Riachos‚ÄĚ. Estamos a falar de pouco mais de 200 metros de dist√Ęncia...
 

“Se tivesse acesso aos arquivos históricos da Santa Casa,
encontraria certamente os nomes dos primeiros confrades
da irmandade do Menino de Deus‚Ä̬†

 
Bom, e o que fazer com a investiga√ß√£o, que foi feita sem nenhum intuito acad√©mico? Os quase 15 mil nomes dos ascendentes de Riachos est√£o registados, toda a informa√ß√£o est√° sistematizada e permite construir √°rvores geneal√≥gicas a partir de qualquer ponto, basta introduzir um av√ī nascido at√© 1910. Recolhas semelhantes, h√°-as com fins acad√©micos, mas que ocupam s√≥ um determinado per√≠odo da hist√≥ria da comunidade em estudo, de cem ou duzentos anos, por causa do tempo que consome. O investigador, impressionado pelo manancial de factos fornecidos pela hist√≥ria, diz que ‚Äúas pessoas sabem relativamente pouco. A nossa mem√≥ria √© extremamente curta‚ÄĚ. E, por isso, ‚Äúseria realmente uma pena perder aqueles dados todos‚ÄĚ.
 
Democratizá-los era a melhor hipótese, disponibilizando-os a quem os quiser. Através de um projecto incrível no nosso museu comunitário, por exemplo, em que um sistema multimédia colocaria em interacção netos, pais e avós, a identificar as pessoas pela antiga maneira, pelas redes familiares, e a descobrir de forma mágica parentescos rebuscados com amigos, vizinhos ou namoradas…
Mas o que mais satisfaria o autor no imediato seria a edição em livro, uma publicação mais técnica sobre a investigação genealógica de Riachos. E com ele viria o CD com todas as redes genealógicas de Riachos até 1910.
Os nomes servem para chamar as pessoas
A história dos nomes surgiram por necessidade de identificação das pessoas, porque as pessoas nasciam até 1910 eram quase sempre baptizadas só com um nome. E por vezes os padres registavam no baptismo, por exemplo, Maria do Rosário porque era filha da Rosário.
Os nomes era aquilo que as pessoas usavam para chamar as pessoas, tal e qual como para chamar as coisas, ‚Äúera a coisa mais simples do mundo‚ÄĚ. Hoje em dia os nomes complicam as coisas; h√° pessoas que ningu√©m identifica pelo nome de registo, mas sim pelo nome por que s√£o conhecidos (o Manel P√© Leve s√≥ ficou conhecido pelo seu nome de baptismo, Manuel Carvalho Sim√Ķes, por causa dos artigos que publica com este nome).
Houve um padre de Santiago, num século destes, que sugeriu mesmo que se registasse, sempre que possível, as alcunhas porque isso facilitaria a identificação dos indivíduos.

Em busca do Senhor Jesus dos Lavradores
O interessante √© pegar nas ‚Äúhist√≥rias que a gente conta‚ÄĚ para ver o que nelas faz sentido, atrav√©s de um fundamento hist√≥rico. O que se aplica √† imagem do Senhor Jesus dos Lavradores, que muitas pessoas dizem ter sido achada na Quinta do Minhoto. E o autor encontrou ‚Äúpistas‚ÄĚ para uma teoria veros√≠mil sobre o aparecimento da lenda.
 
Entre os documentos que referem os terrenos que viriam a dar origem √† Quinta do Minhoto h√° um, de 1503, escrito pela vi√ļva do fidalgo a quem D. Afonso V deu a propriedade, que comprova que durante uns 20 anos se andou a desbravar, arrancar mato e come√ßar a lavrar em toda extens√£o que hoje vai desde a Quinta do Minhoto √† estrada da Mal√£. Nessa altura a imagem, quatrocentista, segundo um historiador de arte, seria recente e pode ter sido enterrada, por alguma raz√£o, naqueles terrenos abandonados.
 
Para acabar com as especula√ß√Ķes o autor tem um sonho: aceder aos arquivos hist√≥ricos da Santa Casa da Miseric√≥rdia de Torres Novas √† procura da documenta√ß√£o do acordo entre a institui√ß√£o e a Irmandade dos Lavradores sobre a troca da imagem do Senhor Jesus pela do Menino de Deus. Com certeza ter√° havido um documento escrito por not√°rio para comprovar o acordo que tenha envolvido a troca das imagens e que ambas as partes tenham ficado com uma c√≥pia do documento. De resto, se n√£o tivesse um fundamento hist√≥rico muito espec√≠fico, e muito provavelmente escrito, para a sa√≠da da imagem em preces usuais em s√©culos passados, bem como hoje para os cortejos em Riachos, a Miseric√≥rdia n√£o autorizaria. ‚ÄúMas as pessoas nunca viram nenhum documento, n√£o sabem nada‚ÄĚ, diz. J√° tentou, mas o seu pedido de consulta ao arquivo hist√≥rico da Miseric√≥rdia n√£o teve resposta.¬†
 
As pequenas hist√≥rias documentadas ao longo dos s√©culos contribuem sempre para a constitui√ß√£o de uma hist√≥ria maior. Por alguma raz√£o a Santa Casa sempre foi muito agarrada √† imagem, diz. O valor que lhe foi dado pode ter a ver com o seu potencial de esmola, uma pr√°tica muito antiga. N√£o √© por acaso que foi colocada uma grade de ferro na capela em que se encontra a imagem, na igreja de Santiago. N√£o foi para n√£o roubarem a imagem, foi para n√£o roubarem a caixa das esmolas, visto que ela foi mesmo roubada pelo p√°roco de Santiago, algures no tempo, documentado, claro. H√° at√© a teoria de que a imagem ter√° ido inicialmente para o hospital dos lavradores e que a sua transfer√™ncia acabou por acontecer ¬†quando ocorreu um ‚Äúconfisco‚ÄĚ de todos os bens das confrarias para a Santa Casa.
 
Tem pois esta interpretação crítica dos eventos que favorece a multiplicidade de perspectivas e apura o rigor histórico, e mostra-se também muito crítico quanto aos historiadores locais que publicaram coisas interessantes sem, no entanto, enunciarem as fontes.
O próprio pai fundador da história Riachense, Chora Barroso, grande parte dos documentos que produziu não têm rigor científico, o que dificulta muito a sua utilização em pesquisas actuais por lhe faltar a referência das fontes.

Curiosidades ou algo mais
Para fazer história é preciso ler muito e gastar muito tempo. Como curioso e autodidata, Manuel Pereira diz pecar no seu método porque, muitas vezes, quando vê algo novo interessante quer saber logo mais sobre o assunto e vai por aí fora atrás dessas pistas.
 
Por exemplo, h√° particularidades que aparecem nos registos que permitem verificar em Riachos fen√≥menos globais. Manuel Pereira ficou verdadeiramente impressionado com o n√ļmero de pessoas que morreram sem chegar a casar. Em Riachos, at√© ao s√©c. XVIII, mais de 50% dos indiv√≠duos que aqui nasceram, morreram at√© aos seis anos de idade. Um n√ļmero que est√° na m√©dia do territ√≥rio nacional, mas que n√£o deixa de impressionar.
 
Ou encontrar relatos de práticas que, apesar de invulgares, eram o padrão em casos semelhantes. Certa criança corria perigo de vida pouco depois do nascimento, por isso era baptizada à pressa em casa, mas quando acabava por ir à igreja formalizar o baptismo era feito um exorcismo, uma espécie de exercício de cautela porque o padre não conhecia a pessoa que a tinha baptizado.
 
Ou ainda a questão dos nomes dos locais que ficam tão mais tangíveis quando nos apercebemos da sua origem. Os Casais Castelos começaram por ser o Casal de um Manuel Rodrigues Castelo. Logo, o padre disse no registo que ele era residente no Casal do Castelo. Depois o senhor teve filhos e o lugar passou a chamar-se os Casais dos Castelos. A propósito, historicamente, é curioso hoje existir esta ligação de Riachos aos Casais Castelos mas verificar que, por exemplo, de 1660, época em que a capela de Riachos já existia, até já ao século XX houve apenas duas crianças nascidas nos Casais Castelos que trouxeram a baptizar à capela de Riachos, tendo sido todas as outras baptizadas na igreja de Santiago. Trata-se provavelmente de uma formalidade jurisdicional que não favoreceu a ligação de Riachos aos Casais Castelos durante muitos séculos. As pessoas do Lagar Novo, por exemplo, já vinham a Riachos. 
Mas as curiosidades nunca mais acabam. Em Janeiro de 2014 o jornal O RIACHENSE começa a publicar a série de artigos "Somos todos primos", da autoria de Carlos Manuel Pereira, sobre as origens dos nomes de família existentes em Riachos.
 

Actualizado em ( Quinta, 30 Janeiro 2014 12:55 )  
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