o riachense

TerÁa,
25 de Abril de 2017
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José Moreira

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 Fome e fartura

A minha inf√Ęncia foi passada nos idos anos 80 e a adolesc√™ncia no in√≠cio da d√©cada de 90. Fui por isso espectador na primeira fila da viagem vertiginosa, que de l√° para c√° se assistiu. R√°pida demais mesmo.
Recordo que nos anos 80 havia poucos carros em Riachos e os felizardos proprietários passeavam orgulhosamente os seus Renault 5. Hoje, já ninguém vira a cara para ver passar um BMW ou um Mercedes.
Recordo que sobretudo por quest√Ķes econ√≥micas, a sopa fazia sistematicamente parte da dieta alimentar de qualquer fam√≠lia. Hoje a dieta √© √† base de bifes, Coca-cola e bolos. Muitos bifes, muita Coca-cola e muitos bolos.
Recordo que um computador era um objecto estranho que existia em poucos lares. Hoje, qualquer mi√ļdo da prim√°ria tem um Magalh√£es e uma PlayStation e pobre daquele que aos 10 anos n√£o leve o telem√≥vel para as aulas.
Recordo que comprar casa estava ao alcance de poucos e seguramente só depois de constituir família e de passar uma temporada em casa dos sogros para fazer um pé-de-meia. Hoje tenho vários colegas que compraram apartamentos sozinhos e muito antes de pensarem sequer em juntar-se ou ter filhos.
Tanta abund√Ęncia devia ter dado para desconfiarmos. Cidad√£os atentos achariam estranho que uma economia e uma produtividade que nos anos bons crescia pouco mais de 2%, permitisse tanta prosperidade, tanta abastan√ßa e um crescimento t√£o r√°pido da classe m√©dia.
Hoje sabemos que afinal não permitiu. Não passou duma ilusão. Uma ilusão criada à custa do endividamento do país e à custa do endividamento das famílias.
A verdade é que durante o Estado Novo os nossos avós sabiamente poupavam o que conseguiam e esses hábitos perderam-se com os políticos de Abril e a sua geração. Goste-se ou não, nem tudo eram defeitos antigamente, como nem tudo são virtudes agora.
Foi sobretudo esta mudança de paradigma, combinada primeiro com os subsídios para a entrada para a CEE, depois com a passagem para o Euro e por fim com a globalização que inundou as nossas casas de produtos baratos Made in China, que permitiram toda esta prosperidade e este caldo materialista e burguês onde confortavelmente nos mantivemos instalados por décadas. Não consigo apagar da minha memória que até há bem pouco tempo era prática contraírem-se empréstimos (e não foram poucos) para ir passar as férias ao estrangeiro! Este foi o ponto de futilidade que atingimos.
Temo que a adolescência da minha filha não possa ser tão gloriosa quanto foi a minha. E temo sobretudo que se conseguir chegar à velhice não tenha muito mais há minha espera que um prato de sopa. 
Ao prov√©rbio ‚ÄúN√£o h√° fome que n√£o d√™ em fartura‚ÄĚ, sou infelizmente for√ßado a acrescentar ‚ÄúE vice-versa‚ÄĚ.
Actualizado em ( Quarta, 13 Novembro 2013 12:10 )  

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