o riachense

Sexta,
24 de Novembro de 2017
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José Moreira

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 Fome e fartura

A minha infância foi passada nos idos anos 80 e a adolescência no início da década de 90. Fui por isso espectador na primeira fila da viagem vertiginosa, que de lá para cá se assistiu. Rápida demais mesmo.
Recordo que nos anos 80 havia poucos carros em Riachos e os felizardos proprietários passeavam orgulhosamente os seus Renault 5. Hoje, já ninguém vira a cara para ver passar um BMW ou um Mercedes.
Recordo que sobretudo por questões económicas, a sopa fazia sistematicamente parte da dieta alimentar de qualquer família. Hoje a dieta é à base de bifes, Coca-cola e bolos. Muitos bifes, muita Coca-cola e muitos bolos.
Recordo que um computador era um objecto estranho que existia em poucos lares. Hoje, qualquer miúdo da primária tem um Magalhães e uma PlayStation e pobre daquele que aos 10 anos não leve o telemóvel para as aulas.
Recordo que comprar casa estava ao alcance de poucos e seguramente só depois de constituir família e de passar uma temporada em casa dos sogros para fazer um pé-de-meia. Hoje tenho vários colegas que compraram apartamentos sozinhos e muito antes de pensarem sequer em juntar-se ou ter filhos.
Tanta abundância devia ter dado para desconfiarmos. Cidadãos atentos achariam estranho que uma economia e uma produtividade que nos anos bons crescia pouco mais de 2%, permitisse tanta prosperidade, tanta abastança e um crescimento tão rápido da classe média.
Hoje sabemos que afinal não permitiu. Não passou duma ilusão. Uma ilusão criada à custa do endividamento do país e à custa do endividamento das famílias.
A verdade é que durante o Estado Novo os nossos avós sabiamente poupavam o que conseguiam e esses hábitos perderam-se com os políticos de Abril e a sua geração. Goste-se ou não, nem tudo eram defeitos antigamente, como nem tudo são virtudes agora.
Foi sobretudo esta mudança de paradigma, combinada primeiro com os subsídios para a entrada para a CEE, depois com a passagem para o Euro e por fim com a globalização que inundou as nossas casas de produtos baratos Made in China, que permitiram toda esta prosperidade e este caldo materialista e burguês onde confortavelmente nos mantivemos instalados por décadas. Não consigo apagar da minha memória que até há bem pouco tempo era prática contraírem-se empréstimos (e não foram poucos) para ir passar as férias ao estrangeiro! Este foi o ponto de futilidade que atingimos.
Temo que a adolescência da minha filha não possa ser tão gloriosa quanto foi a minha. E temo sobretudo que se conseguir chegar à velhice não tenha muito mais há minha espera que um prato de sopa. 
Ao provérbio “Não há fome que não dê em fartura”, sou infelizmente forçado a acrescentar “E vice-versa”.
Actualizado em ( Quarta, 13 Novembro 2013 12:10 )  

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