o riachense

Quinta,
17 de Agosto de 2017
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Feliciano Dias, o eterno capitão

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Feliciano Dias continua a jogar à bola em todos os domingos da nossa infância.

Há três meses, a Nova Augusta, revista de cultura editada pelo município de Torres Novas, publicou um texto de Carlos Simões Nuno sobre os primeiros tempos do futebol em Riachos. O autor dedicou o seu trabalho “Ao Feliciano Dias que continua a jogar à bola em todos os domingos da minha infância”. Esta bela dedicatória diz muito sobre a importância que Feliciano Dias teve e ainda tem no futebol em Riachos. A sua invejável resistência física e sobretudo a sua atitude de jogador íntegro e correcto dentro e fora das quatro linhas servia de exemplo para colegas e era profundamente respeitada pelos adversários e árbitros. Para gerações de riachenses, que iam à bola no campo da Raposa aos domingos, Feliciano Dias era um ídolo sereno e discreto, alguém que indicava a atitude correcta de jogar à bola, alguém que fazia jogo limpo, que nunca foi castigado, que respeitava e era respeitado. Para estas gerações, Feliciano Dias continua ainda a jogar como dantes e é ainda o capitão de todas as equipas do Atlético, aquele que no fundo simboliza a forma honrosa, digna e desportiva de praticar desporto. Feliciano Dias nunca abandonou a sua equipa de sempre. A sua vida confunde-se com a história do Atlético no último meio século.

Carlos Tomé

Agora já com 74 anos Feliciano Dias ainda calcorreia a pé mais de 10 quilómetros, duas ou três vezes por semana. Veste um fato de treino, calça umas sapatilhas e lança-se nas caminhadas em grande velocidade que dificilmente encontra quem o acompanhe. Palmilha os caminhos do campo de Riachos, de gorro na cabeça e andar acelerado. Ainda hoje respira saúde e vigor de fazer inveja aos mais novos.
 
Começou a jogar futebol nos juniores do Atlético aos 17 anos na época de 1955/56 e manteve-se a jogar em provas oficiais até aos 43 anos. “Sempre tive gosto pelo desporto e preparava-me bem” diz à laia de desculpa pelo facto de ter jogado futebol durante tantos anos. “O principal é um indivíduo gostar do que faz” acrescenta. E Feliciano Dias gostava tanto do que fazia que nunca largou a camisola do Atlético. “Tive muitos convites para jogar em todos os clubes da região mas nunca quis sair do Atlético. Julgo que dantes havia mais amor à camisola. Houve uma data de anos que a equipa do Atlético era constituída só por rapaziada de Riachos. Não havia ninguém de fora. Na minha opinião ou um indivíduo é profissional do futebol, que não era o caso, ou então tem o seu trabalho e joga à bola porque gosta. Era o que eu fazia”.
Para além de sempre ter vestido as cores do Atlético durante um quarto de século a jogar futebol, Feliciano Dias foi também sempre capitão em todas as equipas em que participou. É um facto provavelmente único na região. “Eram os jogadores que me escolhiam. Se calhar escolhiam-me pela minha conduta e pela minha aplicação. Os árbitros também tinham muita consideração por mim. Nunca fui castigado por tratar mal alguém ou por ser incorrecto para algum jogador ou para algum árbitro. Nunca tive nenhum problema disciplinar.”

O capitão era sempre escolhido pelos colegas que viam em si um exemplo de dedicação e competência. A sua voz era respeitada por todos. “Eu era muito considerado. Não era por jogar muito bem mas tinham muito respeito por mim”.
 
Mas Feliciano Dias não era apenas um bom jogador de futebol, pois também praticou outros desportos e ajudou o Atlético na ginástica. “Joguei basquetebol numa equipa dos CTT e estive uma data de anos talvez 10 ou 12 ligado à ginástica do Atlético, que começou ainda antes do 25 de Abril. Chegámos a ter quase 300 crianças na ginástica”.
E quanto à situação do clube, estará Feliciano Dias apreensivo quanto ao futuro? “Não estou apreensivo. O Atlético deve só fazer aquilo que pode fazer. Não pode esbanjar muito dinheiro. Se não pode andar na 3.ª divisão que ande nos regionais. Importante é representar bem a terra e não andar em grandes aventuras sem poder. No caso de baixar de divisão não há problema nenhum. Aliás, quando começou a época já se sabia que era possível descer”.

Feliciano com Manuel da Vaca e Cascão (agachado)
 
Caso se pergunte ao Feliciano Dias se haverá algum risco deste clube acabar, porque o futuro é incerto, a resposta não se faz esperar “acho que o Atlético não acaba. Riachos sempre foi uma terra muito virada para a prática do desporto e já houve muitas crises que foram sempre ultrapassadas, até já houve uma altura em que foram os próprios jogadores que tomaram conta do clube. Dificuldades sempre houve e sempre foram vencidas. Não tenho medo do futuro. Não tenho medo que o clube possa acabar porque isso não vai acontecer”.
 
Se lhe perguntarem quem foi o melhor jogador que vestiu a camisola do Atlético, Feliciano Dias diz não saber, certamente por não querer melindrar ninguém. Mas adianta que “um jogador para ser de facto bom não basta ser habilidoso, tem que ser disciplinado e o clube tem de contar sempre com ele. Se for habilidoso mas for malcriado e andar sempre expulso não é um bom jogador. Tem que ser íntegro, um bom homem dentro e fora do campo, a sua conduta tem que ser um exemplo para os outros”.
 
Agora que só faz marcha, Feliciano Dias ainda continua a jogar à bola em todos os domingos da nossa infância. E o seu exemplo ficará para sempre a marcar a memória colectiva desta terra. A história do Atlético passa pela vida deste homem. Confunde-se com ela. Na memória de muitos riachenses ele ainda joga à bola. Ele ainda é o capitão.
Actualizado em ( Sexta, 25 Novembro 2016 11:29 )  

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